Ajuda à Ucrânia vira alvo da extrema direita e de Trump na Europa
Merz e Macron rebatem AfD e Le Pen, enquanto Zelenski critica Trump e alerta que divisões entre aliados favorecem Putin.

O primeiro-ministro da Alemanha, Friedrich Merz, afirmou nesta quinta-feira (15), em discurso ao Parlamento, que “nenhum euro destinado à Ucrânia está fazendo falta nos gastos sociais e com educação” no país. A ressalva tem motivo: a ajuda à Ucrânia se tornou um peso eleitoral difícil de sustentar na Alemanha e em outras nações europeias.
Além disso, o cenário se complica com a posição de Donald Trump, também pressionado pelas urnas nos Estados Unidos, e com a onda de manifestações por reformas e direitos que ocupa as ruas do continente.
Parlamento regional pede fim do apoio a Kiev
No mesmo dia do discurso de Merz, o Parlamento estadual de Saxônia-Anhalt, a 130 quilômetros de Berlim, realizou sessão extraordinária com uma única pauta: “Conversas de paz em vez da ampliação da guerra na Ucrânia”. Em setembro, o estado, um dos mais pobres do país, deu quase 44% dos votos à AfD (Alternativa para a Alemanha), partido de extrema direita.
Com a ajuda do pequeno BSW (Aliança Sahra Wagenknecht), o Legislativo aprovou uma moção que exige “cessar-fogo imediato” e a “interrupção da ajuda financeira a Kiev”. O texto pede ainda negociação com a Rússia para retomar a compra de gás natural. O resultado é simbólico, pois relações exteriores não são competência dos estados.
Merz acusa oposição de banalizar o conflito
Em Berlim, Merz disse ver aumento da “disposição da Rússia para uma escalada”, inclusive contra a Alemanha. Ele aludiu a invasões de drones e a ataques híbridos na região do Báltico e no território alemão. Segundo o premiê, os opositores banalizam a guerra em busca de dividendos eleitorais.
Alice Weidel, colíder da AfD, classificou a fala como “desespero”. Merz deixou o plenário enquanto ela discursava.
Le Pen promete cortar financiamento
O debate, porém, não se restringe à Alemanha. Na França, Marine Le Pen, líder das pesquisas, disse que um governo da Reunião Nacional interromperia o financiamento a Kiev. Ela citou o “estado precário” das contas públicas e indicou prazo de seis meses após as eleições presidenciais, em abril e maio.
Em resposta, o presidente Emmanuel Macron afirmou que cortar a ajuda comprometeria a segurança francesa. “Vamos demonstrar respeito pelo povo francês, eles é que vão votar”, declarou. Já o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, disse em entrevista que Le Pen “não está familiarizada com alguns detalhes”.
Zelenski contraria Trump e critica os EUA
Na mesma entrevista, Zelenski declarou que continuará a bombardear refinarias na Rússia, o que desafia o “cessar-fogo energético” anunciado por Trump dias antes. Ele também criticou falhas da internet da Starlink na linha de frente e o compartilhamento de dados de inteligência vindos dos EUA.
As ameaças de Trump surgiram após o anúncio de que os EUA importariam diesel russo para conter o preço dos combustíveis, a menos de dois meses das eleições para o Congresso. Vários líderes europeus se solidarizaram com Zelenski. No fim de semana, Trump escreveu em rede social que o ucraniano “não quer acabar com essa guerra e, provavelmente, nunca quis”.
Orçamento da União Europeia entra no radar
Em reunião do Conselho Europeu na semana passada, Macron pediu que os líderes decidam o próximo Orçamento da União Europeia até o fim do ano, segundo diplomatas presentes. O motivo é a eleição francesa e também os pleitos de 2027 na Polônia, na Eslováquia, na Grécia, na Finlândia e na Itália. O orçamento, válido de 2028 a 2034, exige aprovação unânime dos 27 países-membros.
Está em jogo ainda o financiamento do bloco à Ucrânia no próximo ano, de EUR 70 bilhões (R$ 399 bilhões). A necessidade reavivou a ideia de usar os mais de EUR 200 bilhões (R$ 1,14 trilhão) russos congelados no sistema bancário europeu.
“Divisões entre europeus e americanos ajudam Putin”, disse Zelenski. “Isso faz com que ele se sinta bem-sucedido.” O presidente ucraniano, no entanto, não comentou as divisões entre os próprios europeus.



