ClickRio
Últimas
Política

Lula poderá indicar seis diretores do BC até 2027

As nomeações podem alterar o Copom, ampliar a maioria de novos diretores e mudar o equilíbrio interno do Banco Central.

· 4 min de leitura
Lula poderá indicar seis diretores do BC até 2027
Foto: Reprodução

O presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poderá indicar seis diretores do BC até o fim de 2027. As nomeações podem alterar o equilíbrio do Copom, que define a taxa básica de juros. O tema também colocou o perfil dos futuros diretores no centro das atenções do mercado financeiro.

Duas vagas estão abertas desde janeiro. Além disso, outras duas indicações poderão ocorrer até fevereiro de 2027. Mais dois postos ficarão vagos em 31 de dezembro do próximo ano. A partir de 2028, os seis novos nomes representarão a maioria das nove cadeiras do colegiado.

Copom e inflação

Parte dos agentes financeiros teme uma condução mais tolerante com a inflação. A leitura é que isso poderia acelerar a redução da Selic. No entanto, essa possibilidade divide os especialistas ouvidos sobre o assunto.

Em 2028, último ano do mandato de Gabriel Galípolo na presidência do BC, permaneceriam apenas ele, Gilneu Vivan e Izabela Correa na composição atual. Os mandatos dos três terminam em dezembro daquele ano. Assim, as decisões futuras podem refletir visões diferentes dentro da diretoria.

Galípolo recebe críticas de integrantes do PT e do governo. Eles atribuem aos juros altos parte da pressão sobre a dívida pública. O histórico recente inclui uma divisão no Copom em maio de 2024, quando a maioria venceu por cinco votos a quatro.

Na ocasião, Galípolo e os demais indicados por Lula defenderam um corte de 0,50 ponto percentual na Selic. Porém, prevaleceu a redução de 0,25 ponto, para 10,5% ao ano. Depois daquele episódio, as decisões passaram a sair por unanimidade.

Mercado acompanha nomes

As especulações sobre André Roncaglia também repercutiram nos preços dos ativos financeiros. Ele é diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) e afirmou que não recebeu contato da equipe econômica sobre o assunto. Ainda assim, disse que mantém colaboração com a Fazenda e o BC.

“Não me cabe comentar sobre algo que é prerrogativa do presidente Lula. O que posso dizer é que tenho mantido uma colaboração muito proveitosa com a Fazenda e o BC a partir de minhas atribuições no FMI.”

Roncaglia também afirmou que o fundo tem avaliação positiva das reformas econômicas. Além disso, destacou a atuação do Banco Central na estabilidade da inflação e do sistema financeiro. “Trata-se de um momento excelente na relação do FMI com o Brasil”, disse.

Entre economistas ouvidos sobre as nomeações, há leituras distintas. Gustavo Loyola, ex-presidente do BC e sócio da Tendências Consultoria, vê risco de pressão sobre a instituição. Segundo ele, esse cenário pode crescer se o governo não resolver os problemas fiscais.

“Outra possibilidade sempre aventada nessa situação é aumentar a meta, que é uma jogada de toalha, a confissão de fracasso. Diria que esse vai ser um ponto de atenção nos próximos meses”, diz.

Sérgio Werlang, ex-diretor do BC e professor da Fundação Getulio Vargas, tem outra avaliação. Para ele, Lula reconhece o custo político da inflação. Por isso, ele espera nomes parecidos com os de Galípolo e Paulo Picchetti.

“São pessoas que têm uma visão mais ampla [da economia], mas que entraram [no BC] com esse compromisso fixado de meta em 3%”, diz. “Não vejo uma grande modificação no Banco Central. Eu vejo uma manutenção do perfil médio conservador, não ultraconservador como chegou a ser no início do governo, com Roberto Campos Neto.”

Vagas e diretoria feminina

O debate também envolve o funcionamento interno do BC. Para Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos, a demora para preencher os cargos pode afetar o trabalho da instituição. Ele avalia que as nove diretorias precisam estar completas.

“São diretorias importantes. [Levar] quase um ano começa a fazer diferença no trabalho do BC, justamente porque ele é desenhado para ter as nove diretorias. Quando você começa a acumular diretorias, naturalmente começa a faltar braço”, afirma Megale.

A presença feminina também entrou na discussão. Izabela Correa é hoje a única mulher na diretoria. Segundo relatos reunidos sobre o tema, Carolina Bohrer, chefe do departamento de Organização do Sistema Financeiro, conta com simpatia de Galípolo para uma cadeira.

Rodrigo Maia, diretor do BTG Pactual e ex-presidente da Câmara, avalia que o cenário internacional exige uma autoridade monetária conservadora. Ele também defende a autonomia da instituição. “Eu não acho que ele [Lula] fará diferente nas próximas nomeações. O Lula é forjado na negociação”, disse.

Na diretoria de Fiscalização, que ficará vaga a partir de março, dois ex-integrantes do banco apostam na escolha de um servidor de carreira. A recondução de Aílton de Aquino também aparece entre as possibilidades. No entanto, há dúvidas sobre o desgaste ligado ao caso Banco Master.

Aquino prestou depoimento à Polícia Federal sobre a fiscalização que levou à liquidação da instituição de Daniel Vorcaro. Ainda assim, há confiança interna em seu trabalho, segundo a apuração citada no texto original.