Universidade pública exige ética além do conteúdo, diz professora
Em artigo sobre o cancelamento de palestra na UFRRJ, Clarissa Oliveira da Silva defende que a escolha de palestrantes também passa por princípios.

A universidade pública precisa considerar ética e conteúdo na escolha de palestrantes, afirmou Clarissa Oliveira da Silva. A professora da UFRRJ comentou o cancelamento de uma palestra de Eike Batista, em meio à repercussão do caso nas redes sociais.
O episódio motivou duas publicações anteriores sobre a suspensão do convite. Em uma delas, o cancelamento apareceu como reação de professores e alunos. Depois, Eike Batista e sua equipe atribuíram a decisão à pressão de um suposto grupo de radicais da universidade.
Clarissa disse, em carta aberta publicada em seu perfil, que não identificou radicalismo no grupo em que se manifestou contra o evento. Segundo ela, houve questionamentos ao convite, mas sem exageros. Além disso, afirmou que não viu pedido explícito de cancelamento da palestra nos diálogos que recebeu.
Para a professora, a decisão partiu da organização do evento ou da administração central da UFRRJ. Ela também disse que o convite inicial parece ter seguido o mesmo caminho de definição. “Não sei bem precisar seu nascedouro”, escreveu, ao tratar da origem da decisão.
Ética e referencial
Na carta, Clarissa defendeu a diferença entre radicalismo e defesa de princípios. De acordo com ela, os questionamentos da comunidade acadêmica vieram dessa segunda posição. Por isso, a professora avaliou que não faria sentido repetir as dúvidas já levantadas nos grupos que acessou.
Ela também afirmou que eventos e palestras acontecem o tempo inteiro na universidade. Assim, segundo a professora, o convite a palestrantes envolve referência, experiência e trajetória acadêmica. Para ela, o conteúdo sozinho não basta para definir quem deve falar em uma universidade pública.
Clarissa argumentou que o referencial também precisa ser considerado. Dessa forma, disse que dissociar conteúdo e referencial ignora a ética, elemento que, na visão dela, diferencia a universidade de outros espaços de palestras.
Em sua avaliação, a universidade pública tem compromisso com formação humanista. Ela disse ainda que esse compromisso ajuda a construir uma sociedade mais sustentável e justa. Por isso, concluiu que domínio de conteúdo é condição necessária, mas não suficiente, para palestrar na instituição.
Impacto na universidade
A professora também disse que normalizar a ideia de que só o conteúdo importa enfraquece a ética social e coletiva. Segundo ela, reduzir esse papel pode tornar a universidade indistinta de outros espaços de informação. “É destruí-la por dentro”, escreveu no texto.
Ao final, Clarissa afirmou que a universidade pública continua com credibilidade e institucionalidade sólidas, apesar das dificuldades. Ainda assim, ressaltou que a continuidade desse trabalho depende do empenho coletivo. Para ela, esse esforço é necessário para manter a formação das próximas gerações.
No texto, ela assinou como professora titular da UFRRJ, no Departamento de Química Fundamental.



