Flávio Bolsonaro apaga posts que criticavam o Bolsa Família
Senador excluiu do X mensagens que ligavam o programa social à dependência e ao voto; agora, diz que o benefício está garantido.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, apagou de seu perfil no X, antigo Twitter, publicações em que criticava o Bolsa Família. Nas mensagens, ele chamava programas de transferência de renda de “bolsa-farelo” e acusava o PT de usar benefícios sociais para ganhar apoio eleitoral. A exclusão foi divulgada nesta segunda-feira (19), na reta final do segundo turno.
Nos últimos dias, o candidato passou a afirmar publicamente que manterá o programa se for eleito. Por isso, a retirada das postagens antigas ganhou destaque na disputa contra o presidente Lula.
Como as publicações apagadas foram identificadas
As mensagens foram localizadas a partir de um arquivo com o histórico de postagens do senador, obtido em junho deste ano. O material reúne textos, datas, horários e endereços originais, o que permite comparar o conteúdo antigo com o que segue disponível na plataforma.
De acordo com o levantamento, todas as mensagens citadas em uma reportagem de quatro meses atrás sobre mudanças no discurso de Flávio foram excluídas. A campanha não respondeu aos pedidos de explicação sobre as remoções.
O que Flávio dizia sobre o programa
Em junho de 2013, o então deputado estadual escreveu que o PT “perpetua a pobreza com o bolsa-farelo, mantendo as pessoas nessa dependência para não perder seus votos”. No material apresentado, a acusação não veio acompanhada de comprovação.
Em 2014, ele citou a Comissão Nacional da Verdade para ironizar quem vive do programa. “#ComissãoDaVerdadeDescobre que dinheiro cai do céu e ninguém precisa trabalhar dobrado para manter quem vive de bolsa família”, escreveu. Ainda naquele ano, afirmou que “os milhões que recebem bolsa-família ou auxílio-desemprego, não procuram emprego”.
Crítica ao Renda Melhor, do governo do Rio
O termo “bolsa-farelo” também foi usado contra o Renda Melhor, criado pelo governo fluminense em 2011. A iniciativa previa um benefício complementar de até R$ 300 a famílias que já recebiam o Bolsa Família, com o objetivo de combater a extrema pobreza.
Na época, Flávio era deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Em 24 de novembro de 2011, ele escreveu: “Fui o único voto contra na @alerj ao projeto ‘Renda Melhor’, q chamei de ‘bolsa-farelo’, pelo seu caráter clientelista eleitoral”.
Além disso, ele disse ter proposto emendas para limitar o auxílio a dois anos. Em outra mensagem, afirmou que, com um limite de tempo, “poderia até ser favorável”. Esses posts também foram excluídos.
Candidato diz que o benefício está garantido
As exclusões vieram à tona no mesmo dia em que Flávio divulgou um vídeo no Instagram para tranquilizar beneficiários. Na gravação, disse que o “benefício está garantido”. Em junho, ele havia negado ter mudado de posição sobre o tema.
Nesta segunda, a coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, afirmou em entrevista que um eventual governo adotaria uma regra de transição de dois anos para quem aumentar a renda. Segundo ela, a ideia é permitir que as famílias aceitem emprego formal ou empreendam sem perder de imediato a proteção do programa.
“As pessoas não podem ficar presas para sempre no Bolsa Família; aquilo é uma proteção, mas é o início de uma jornada”, afirmou Daniella Marques.
PT reage e campanha nega corte automático
Após a entrevista, perfis ligados ao PT e apoiadores de Lula passaram a dizer que Flávio pretendia tirar beneficiários do programa depois de dois anos. Em resposta, Daniella gravou um vídeo e negou o desligamento automático.
Segundo ela, hoje a família que aumenta a renda mantém o benefício por um ano, com retorno em até 36 meses. Na proposta de Flávio, o prazo seria de dois anos, e o retorno seria automático. Esses números fazem parte da comparação da campanha e não foram acompanhados de proposta legislativa detalhada.
O prazo de dois anos coincide com o defendido por Flávio em 2011. Há, porém, uma diferença: naquele ano, a proposta limitava a permanência em um programa estadual, enquanto agora a campanha fala em transição para famílias que ampliam a renda.
Tema marca a reta final do segundo turno
O segundo turno está marcado para domingo (25), quando Lula e Flávio Bolsonaro disputam a Presidência. O Bolsa Família se tornou um dos principais assuntos do confronto, especialmente pelas discussões sobre manutenção dos pagamentos e regras de permanência.
Enquanto a campanha de Flávio assegura que o programa será mantido, apoiadores de Lula questionam o histórico de declarações do senador. Até o momento, a campanha não explicou por que as mensagens foram retiradas das redes.



