Celular de Vorcaro mostra 71% das interações com ligados a Bolsonaro
Dados extraídos pela Polícia Federal indicam 90% de contatos com a direita; parte das mensagens expirou ou foi apagada.

A análise de um celular de Vorcaro, dono do Banco Master, identificou 41,6 mil interações pelo WhatsApp com políticos e autoridades do Brasil. Segundo o levantamento, feito com apoio da organização de segurança digital InterSecLab, 90% dos contatos envolveram figuras da direita, 9% políticos de centro e 1% representantes da esquerda.
Além disso, 71% das interações ocorreram com integrantes ou ex-integrantes do governo Jair Bolsonaro. Os registros incluem textos, áudios, imagens, vídeos e ligações. A Polícia Federal extraiu os dados em 18 de novembro de 2025, um dia após a primeira prisão do banqueiro.
Ex-integrantes do governo Bolsonaro lideram os contatos
Ao todo, foram mapeados 56 políticos: 36 de direita, 16 de centro e quatro de esquerda. As três mulheres da lista somam apenas 0,2% do volume total.
O ex-ministro das Comunicações Fábio Faria lidera, com 19,3 mil interações. Em seguida aparecem Bruno Bianco, ex-secretário especial de Previdência e Trabalho, com 4.782, e o senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil, com 3.967. No entanto, boa parte do conteúdo não pôde ser recuperada, pois as mensagens eram temporárias ou foram apagadas.
O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, apresentou a Vorcaro o filme Dark Horse, com proposta de destinar US$ 24 milhões a um fundo imobiliário nos Estados Unidos. O financiamento é alvo de investigação no Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo informações divulgadas, Flávio também passou a ser investigado por suspeita de ser beneficiário de lavagem de dinheiro. Ele não quis se pronunciar.
Pagamentos a emissora de TV e projeto sobre regras bancárias
Fábio Wajngarten teve 1.151 interações com o banqueiro, das quais 1.071 expiraram. Ele afirmou ter sido contratado pela defesa de Vorcaro em abril de 2025 para cuidar da comunicação. Segundo ele, o volume de contatos se explica pelo envio de notícias a mais de 200 pessoas.
Os registros preservados mostram que, em 28 de abril de 2025, ele encaminhou dados para um pagamento de R$ 20 milhões a uma emissora de TV. Logo depois, enviou informações para um repasse de R$ 3,2 milhões à sua própria empresa. Wajngarten não esclareceu a finalidade do primeiro pagamento e indicou que a pergunta fosse dirigida a uma profissional de marketing do banco.
Por outro lado, o deputado Marcelo Queiroz, hoje no PSDB, enviou ao banqueiro em novembro de 2024 versões de um projeto sobre regras para socorrer e liquidar bancos. Ao informar que a proposta saíra da pauta, escreveu: “Com isso ganhamos um tempo”. Vorcaro compartilhou o texto com advogados e, depois, com um diretor do Banco Central. O projeto foi rejeitado pelo plenário da Câmara com 252 votos, cinco a menos que o necessário.
Previdência de estados e municípios e o caso Rueda
Entre outubro de 2023 e dezembro de 2024, o Banco Master recebeu R$ 1,87 bilhão de 18 regimes de previdência de estados e municípios. Os recursos foram captados por meio de letras financeiras sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Com a liquidação do banco, em novembro de 2025, esses investimentos ficaram sem a garantia.
Antonio Rueda, presidente do União Brasil, teve 2.636 interações com Vorcaro, das quais 65% foram apagadas ou expiraram. Em 12 de julho de 2024, quando o instituto de previdência do Amapá aprovou os primeiros R$ 200 milhões, ele enviou dez mensagens em três minutos. Uma delas, preservada, diz: “Apaga essas mensagens.” Rueda afirmou que era advogado do banco.
Já ACM Neto teve 110 interações, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, 129. Em proposta de delação ainda não aceita, Vorcaro teria dito que combinou com Rueda e ACM Neto o pagamento de 10% dos recursos captados. Os dois negam. ACM Neto disse que a relação era de consultoria.
Outros nomes e versões dos citados
O empresário Pablo Marçal teve 438 interações, 99% delas indisponíveis. Já o ministro Alexandre de Moraes registrou 307, das quais 94% expiraram; ele não informou o conteúdo e disse ter apresentado sua versão ao STF. À esquerda, o levantamento cita Guido Mantega, Ricardo Lewandowski, José Dirceu e João Paulo Cunha. Mantega e Lewandowski disseram ter prestado consultoria ao banco, enquanto Dirceu negou ter conversado com o banqueiro, embora a perícia tenha identificado 16 interações.
Entre os 56 políticos mapeados, 33 haviam respondido até o fechamento do levantamento. A ausência de conteúdo impede determinar o assunto de parte das conversas, mas os registros foram contabilizados na análise.



