ClickRio
Últimas
Política

Plataformas menores atraem extremistas após fiscalização sobre o Discord

Investigadores apontam migração para serviços menos monitorados, enquanto autoridades ampliam o acompanhamento de grupos violentos.

· 4 min de leitura
Plataformas menores atraem extremistas após fiscalização sobre o Discord
Foto: Reprodução

Grupos extremistas violentos migraram do Discord para plataformas digitais menores e menos monitoradas. A mudança ocorreu após fiscalização sobre o aplicativo, e a palavra-chave Discord extremistas ajuda a explicar o tema desta apuração.

Investigadores identificaram essa movimentação depois que a Agência Nacional de Proteção de Dados determinou a suspensão do sistema de transmissões ao vivo criptografadas. Um dos serviços que recebeu essas comunidades foi o Root, usado para transmitir agressões contra uma adolescente de 14 anos em Vila Velha, no Espírito Santo.

O caso veio a público no início do mês passado. Na ocasião, um adolescente de 15 anos foi apreendido, suspeito de estupro e tortura contra a namorada. As agressões também foram transmitidas ao vivo para centenas de jovens.

Investigação e migração digital

A apuração começou com informações reunidas pelo Laboratório de Operações Cibernéticas, ligado ao Ministério da Justiça. O órgão encaminhou um relatório à Polícia Civil capixaba. Além disso, pesquisadores apontam que a menor popularidade dessas plataformas facilita a instalação de grupos extremistas.

O Root, lançado no ano passado, tem cerca de 100 mil downloads na loja do Google. O número é muito menor que os mais de 500 milhões registrados pelo Discord. Por isso, a fiscalização menos intensa se torna um fator relevante para esses grupos.

Esse movimento, contudo, não é novo. Em 2022, a suspensão temporária do Telegram levou comunidades extremistas a buscar outras alternativas, incluindo o Discord. Depois, em 2024, o aumento da moderação no próprio aplicativo provocou nova migração, desta vez para a rede social Project Z.

Transmissão ao vivo e monitoramento

Embora o Root proíba discurso de ódio, violência coordenada e glorificação de atos violentos, essas regras não impediram a chegada das chamadas “panelas”. Essas comunidades fechadas reúnem integrantes com hierarquia e funções específicas.

Segundo o delegado Brenno Andrade, sete integrantes ocupavam posições de comando durante a transmissão das agressões. Aproximadamente 300 pessoas acompanharam o episódio em tempo real, e a maioria dos envolvidos é menor de idade. Nas comunidades, a polícia identificou estímulos à automutilação, racismo e tortura de animais.

O adolescente apreendido em 8 de outubro, três dias depois das agressões, confirmou os atos. Ele também afirmou ter cogitado matar a namorada. A motivação seria uma suposta traição virtual envolvendo outros participantes do grupo.

A polícia ainda trabalha para identificar os demais integrantes. Enquanto isso, o promotor Fábio Costa, do Ministério Público do Rio Grande do Sul, diz que a facilidade de migrar entre serviços digitais dificulta o trabalho das autoridades.

Segundo ele, redes conhecidas, como Instagram e X, podem funcionar como porta de entrada. Já a violência acontece em plataformas alternativas, administradas por empresas menores. Dessa forma, os grupos conseguem alternar entre ambientes mais visíveis e outros menos fiscalizados.

Discord segue sob fiscalização

O Laboratório de Operações Cibernéticas informou que monitora o uso do Root por grupos extremistas. O órgão também identificou possíveis descumprimentos das obrigações de proteção de crianças e adolescentes previstas no ECA Digital.

Além disso, o laboratório iniciou contatos com os responsáveis pelo serviço. O objetivo é estabelecer mecanismos de cooperação com as autoridades policiais. Para o promotor, essas comunidades exploram a busca de pertencimento entre crianças e adolescentes.

Ele afirma ainda que a violência e o sadismo funcionam como instrumentos de reconhecimento dentro desses grupos. Segundo o especialista, esse cenário ganhou força durante a pandemia, quando a socialização digital se intensificou.

Mais de dois meses depois da suspensão das transmissões ao vivo, o Discord teve negado um recurso pela Superintendência de Fiscalização da ANPD. O pedido buscava a retomada da funcionalidade, mas a decisão definitiva ainda cabe ao Conselho Diretor da agência.

A restrição foi determinada após uma adolescente de Naviraí, em Mato Grosso do Sul, ser induzida à automutilação e ao suicídio em um grupo fechado do aplicativo. O episódio levou a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, a cobrar publicamente medidas contra a plataforma.