Polícia de São Paulo mata uma pessoa a cada 12 horas
Levantamento mostra alta nas mortes em ações policiais sob Tarcísio e cita mudanças na gestão do uso da força.

As mortes pela polícia em São Paulo ocorreram, em média, a cada 12 horas e 13 minutos entre janeiro de 2023 e agosto de 2026. O período corresponde ao governo Tarcísio de Freitas, e o levantamento considera ações das polícias Civil e Militar.
O intervalo médio ficou cerca de 70% menor que o de 2022. Naquele ano, uma morte ocorria, em média, a cada 20 horas e 48 minutos. Além disso, os dados antecedem três mortes registradas em outubro na capital paulista.
O levantamento usou registros oficiais de ocorrências envolvendo policiais em serviço e de folga. Também leva em conta episódios que levantaram questionamentos sobre o uso de armas de fogo e o atendimento a pessoas em sofrimento psíquico. Saiba mais sobre mortes pela polícia em São Paulo.
Casos sob investigação
Em Moema, na zona sul, Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, morreu na madrugada de 10 de outubro. Os policiais foram acionados após a informação de que uma pessoa transtornada ameaçava atirar contra si.
Na delegacia, os agentes disseram ter confundido o celular do jovem com uma arma. Segundo a reportagem, imagens divulgadas depois reforçam essa versão. Quatro dos oito policiais envolvidos efetuaram 45 disparos.
A perícia identificou 27 ferimentos por tiros no corpo de Gustavo, inclusive na cabeça, no rosto e no tórax. Familiares disseram que ele usava medicamentos para depressão.
Na Vila Dionísia, zona norte, Antonio Nunes Batista, de 40 anos, morreu após uma abordagem em 3 de outubro. Um familiar relatou que ele tinha esquizofrenia. Conforme o boletim de ocorrência, os policiais afirmaram que Batista segurava uma faca e um garfo de churrasco e havia ameaçado pedestres.
Os agentes usaram uma arma de eletrochoque antes de recorrer às armas de fogo. Um vídeo feito por testemunhas mostra que os disparos continuaram depois que Batista caiu no asfalto. Três policiais efetuaram 24 tiros.
Já em 15 de outubro, Camila Pereira da Silva morreu com um tiro no Parque São Domingos. Uma câmera de segurança registrou a mulher caminhando, aparentemente com uma faca, enquanto três policiais a acompanhavam e pediam que soltasse o objeto.
Um dos agentes disparou, e a morte foi constatada no local. As imagens não mostram uso de arma de choque ou de outro equipamento menos letal. As circunstâncias dos três episódios seguem sob investigação.
Mudança na gestão
Para Luís Flávio Sapori, professor da PUC Minas e especialista em segurança pública, os números têm relação com uma mudança de orientação política. Ele afirma que a política de contenção da violência policial do governo Doria foi abandonada no governo Tarcísio.
Segundo o pesquisador, as medidas anteriores buscavam conter abusos sem enfraquecer o combate à criminalidade. Ainda assim, ele avalia que a retomada de uma lógica de guerra contra o criminoso não reduz o poder das organizações criminosas.
“Esse modelo retroalimenta o crime organizado no Brasil”, diz Sapori.
A redução das mortes em 2022 ocorreu após medidas intensificadas desde 2020, durante a gestão João Doria, e mantidas no governo Rodrigo Garcia. O pacote incluía câmeras corporais, equipamentos menos letais, acompanhamento psicológico e análise de intervenções com resultado morte.
Em junho de 2021, a ampliação do programa Olho Vivo levou câmeras para 18 batalhões. Elas gravavam todo o turno, independentemente de acionamento pelo policial. Naquele mês, as unidades participantes, entre elas a Rota, não registraram mortes em confrontos.
Em setembro de 2022, a PM contabilizou 15 mortes. Esse foi o menor número para aquele mês desde 1994.
Tarcísio, que se posicionou criticamente sobre as câmeras corporais, nomeou o policial militar reformado Guilherme Derrite para comandar a Secretaria da Segurança Pública. Ele ficou no cargo de janeiro de 2023 ao início de dezembro de 2025.
O intervalo médio entre mortes passou de 17 horas e 23 minutos em 2023 para 10 horas e 48 minutos em 2024. No conjunto de 2025, ficou em 10 horas e 30 minutos. Entre janeiro e agosto de 2026, já sob Osvaldo Nico Gonçalves, o intervalo foi de 12 horas e nove minutos.
Resposta do governo
A secretária da Segurança Pública confirmou os números, mas não explicou o aumento das mortes. A pasta afirmou que a avaliação da segurança deve considerar também os índices criminais, a produtividade policial e as circunstâncias das ocorrências.
Segundo a secretaria, as prisões cresceram 4,36% entre janeiro e agosto de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025. Os flagrantes lavrados subiram 7,86%, e os inquéritos instaurados avançaram 12,83%.
A gestão estadual disse que os protocolos e treinamentos da PM priorizam a verbalização, a redução da tensão e o uso necessário e proporcional da força. Além disso, informou que o uso de armas de fogo ocorre de forma excepcional.
O governo também afirmou que as mortes são investigadas pelos órgãos competentes, com participação das corregedorias e comunicação ao Ministério Público. Eventuais crimes ou desvios, segundo a pasta, estão sujeitos a responsabilização.
Por fim, a administração estadual anunciou que planeja comprar mais 6 mil armas de eletrochoque. O levantamento, porém, não identificou novas licitações para esses equipamentos durante a gestão Derrite.



