Mulher depõe à Polícia Civil após gesto nazista em Botafogo
Érica Marques Pinho, de 46 anos, foi ouvida na 10ª DP sobre o episódio registrado durante a votação no Rio.

A gesto nazista em Botafogo levou a professora de inglês Érica Marques Pinho, de 46 anos, à Polícia Civil nesta terça-feira (27). Ela foi ouvida na 10ª DP, em Botafogo, na Zona Sul do Rio, sobre o episódio registrado no último domingo (25), durante a votação do segundo turno presidencial.
O caso também chegou à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi). Além disso, a Polícia Civil informou que ainda apura as circunstâncias do ocorrido. Érica deixou a delegacia por volta das 13h20, depois de prestar esclarecimentos aos investigadores.
Defesa fala em deboche
Antes do depoimento, o advogado Marcello Ramalho disse que o gesto representou uma reação às acusações recebidas. Segundo ele, Érica teria sido chamada de nazista e racista por usar uma camisa do então candidato Flávio Bolsonaro (PL) e um boné com a sigla MAGA.
O advogado afirmou que a expressão significa Make America Great Again, slogan popularizado pela campanha do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ainda conforme Ramalho, a cliente queria pedir desculpas à comunidade judaica durante o depoimento.
“Ela foi chamada de nazista, de racista, porque estava com o boné do Trump. Quando ela levanta o braço, foi um tom de deboche às acusações recebidas, sem intenção de expressar adesão ao racismo”, disse o advogado.
Ele também afirmou que os comentários feitos na discussão com o homem que gravou a cena ocorreram “no calor da discussão”. “Ela respeita profundamente a comunidade judaica e ela vai pedir excusas à comunidade judaica”, declarou.
Vídeo e reação no local
O episódio aconteceu no Colégio Santo Inácio, em Botafogo, no dia das eleições. As imagens mostram Érica caminhando em direção à saída com o braço direito estendido para a frente e para cima. O gesto é historicamente associado ao regime nazista.
Eleitores relataram a situação, que terminou em discussão no local. No vídeo, Ian Andrade, de 31 anos, questiona a mulher sobre a atitude. Ele é judeu e ouviu dela uma resposta depois de se identificar.
Ela perguntou se ele era comunista e, depois de saber que ele era judeu, respondeu: “Pior ainda”. Ian afirmou ter se sentido ofendido com o episódio. Em entrevista à TV Globo, disse: “Eu não vou te falar medo, porque eu não tenho medo dessa gente, mas senti realmente um enjoo, um nojo”.
Repúdio e cobrança
A Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj) também publicou nota de repúdio. A entidade classificou o episódio como inaceitável e afirmou que o gesto afronta os valores democráticos, a dignidade humana e a memória das vítimas do nazismo.
O caso ainda repercutiu na Câmara Municipal do Rio. O vereador Flávio Valle (PSD) cobrou providências do Ministério Público e afirmou que o episódio não pode ser tolerado.
“É inadmissível que ainda tenhamos que testemunhar atitudes como essa em pleno exercício do voto, símbolo maior da democracia. Solicitei ao Ministério Público que acompanhe o caso até que esta cidadã seja responsabilizada e presa por crime de racismo. O Brasil não pode tolerar, relativizar ou naturalizar gestos que evocam um dos períodos mais sombrios da história da humanidade”, disse Valle, que preside a Frente Parlamentar de Combate ao Antissemitismo da Casa.



