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Anistia Internacional vai denunciar Milei à ONU por ataques a jornalistas

ONG também levará o caso à CIDH após declarações do presidente argentino contra profissionais da imprensa.

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Anistia Internacional vai denunciar Milei à ONU por ataques a jornalistas
Foto: Reprodução

A Anistia Internacional informou que vai denunciar o presidente argentino, Javier Milei, à ONU e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos por ataques a jornalistas. A organização também citou risco à liberdade de expressão e ao debate democrático.

Na última semana, Milei xingou profissionais que publicaram reportagens investigativas contra ele. Além disso, afirmou que eles deveriam “queimar na fogueira”.

Pressão contra a imprensa

A entidade atua na defesa dos direitos humanos e tem representação em mais de 150 países, incluindo o Brasil. Segundo a organização, as falas do presidente ampliam o assédio contra a imprensa e colocam em risco quem informa.

As declarações ocorreram após a Justiça argentina arquivar, na última sexta-feira, o caso conhecido como “criptogate”. O processo, de fevereiro de 2025, investigava suspeitas sobre Milei e outras pessoas, incluindo a irmã dele, Karina Milei, em um esquema ligado à criação da criptomoeda $Libra.

De acordo com o texto, Milei teria usado as redes sociais para promover o ativo virtual. No entanto, para o juiz federal Marcelo Martínez De Giorgi, não houve delitos.

O presidente citou nominalmente os jornalistas Hugo Alconada Mon, Carlos Pagni, Paulino Rodrígues, Natalia Volosin e Luis Novaresio. Em discurso, ele os desqualificou e afirmou que “os que têm que queimar na fogueira são os filhos da p*”.

Na rede social X, Milei disse que sofreu uma “tremenda operação política e midiática”. Ainda segundo ele, o objetivo seria prejudicar a presidência para fins políticos de conspiração golpista. Na mesma publicação, classificou os jornalistas como “subornados e mercenários da mentira”.

Denúncia internacional

Para a Anistia Internacional, as falas aprofundam o assédio à imprensa e deterioram as garantias do debate democrático. A ONG afirmou que levará os fatos às instâncias internacionais, no âmbito do monitoramento da liberdade de expressão na Argentina.

Sobre a expressão “queimar na fogueira”, a entidade avaliou que a frase evoca violência extrema. Além disso, considerou o episódio uma escalada grave na hostilidade presidencial contra a imprensa.

A diretora-executiva da ONG na Argentina, Mariela Belski, disse que o presidente deve garantir liberdade e segurança ao trabalho jornalístico. Segundo ela, quando o chefe de Estado aponta jornalistas e usa imagens de violência, cria um clima de intimidação.

“O cargo que ocupa exige uma responsabilidade reforçada: deve garantir que a imprensa possa investigar e informar com liberdade e segurança”, disse Mariela Belski. “O assédio por parte do poder deteriora as condições do debate democrático e afeta o direito de toda a sociedade de estar informada.”

A ONG citou ainda o Monitoramento da Liberdade de Expressão do Fórum de Jornalismo Argentino. O levantamento registrou 278 ataques contra jornalistas em 2025, número 55% maior que o de 2024.

O estudo aponta o maior volume desde o início dos registros, em 2008. Milei aparece como autor de 119 episódios, o que o coloca como principal agressor individual.

O levantamento também contabilizou 139 discursos estigmatizantes, 20 ações judiciais contra jornalistas e 28 restrições de acesso à informação. A Anistia Internacional afirmou que a repetição dessas práticas pode gerar autocensura e enfraquecer investigações.

Caso na CIDH

A organização também lembrou uma audiência realizada em novembro de 2025 na Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Na ocasião, entidades denunciaram agressões, violência on-line, assédio judicial e ataques durante coberturas de protestos.

Segundo a Anistia Internacional, a CIDH solicitou informações ao Estado argentino e manifestou interesse em visitar o país. A comissão é uma instituição autônoma da OEA e atua na aplicação da Convenção Americana, também chamada de Pacto de San José da Costa Rica.

A jornalista Carla Gaudensi, secretária da Federação Argentina de Trabalhadores de Imprensa, informou que a entidade também vai aderir à representação. Já o Sindicato de Imprensa de Buenos Aires publicou nota de repúdio ao presidente argentino.

No texto, o sindicato afirmou que Milei “voltou a ultrapassar um limite gravíssimo”. A entidade disse ainda que a incitação contra jornalistas exige reação imediata de todo o espectro político e midiático.

No dia 12, o jornalista brasileiro Rogério Tomaz Jr. foi impedido de entrar na Argentina ao desembarcar no aeroporto Aeroparque, em Buenos Aires. As autoridades migratórias cancelaram a residência permanente dele e determinaram proibição de reingresso por cinco anos.

Rogério Tomaz Jr. mora em Brasília e acompanha a política argentina. Ele também produz conteúdos sobre os impactos econômicos e sociais das medidas do governo Milei, como cortes nos gastos públicos, privatizações e inflação.