Rueda discutiu com Vorcaro venda de 49% da BRB Financeira
Mensagens obtidas pela PF mostram tratativas sobre a operação e citam encontro de Rueda e Vorcaro em Brasília.

Mensagens extraídas pela Polícia Federal mostram que Antonio Rueda discutiu com Daniel Vorcaro a venda de 49% da BRB Financeira. A negociação ocorreu antes do anúncio de uma parceria para a operação, em julho de 2024, e envolveu um consórcio com participação do empresário José Ricardo Lemos Rezek. A palavra-chave BRB Financeira aparece no centro das tratativas, que também citaram mudanças no acordo de acionistas.
Segundo os registros, Rueda enviou um trecho da minuta a Vorcaro quatro dias antes do anúncio. Depois disso, o então dono do Banco Master sugeriu alterações nos poderes para aprovar operações financeiras e de crédito. Os dados também indicam que os dois se encontraram ao menos duas vezes no Lago Sul, em Brasília, durante as conversas.
O que dizia a minuta
A troca de mensagens sobre o documento ocorreu em 1º de julho de 2024. Embora o trecho enviado por Rueda mencionasse o BRB sem citar diretamente a financeira, o texto tratava de atividades do setor. Além disso, previa autonomia ampla para os diretores indicados pelo consórcio.
O acordo daria ao grupo comprador a maioria dos votos no conselho, apesar da compra de 49% do capital. O consórcio também aceitou pagar R$ 320 milhões em dez parcelas anuais. Isso equivale a R$ 32 milhões por ano.
De acordo com fontes do BRB ouvidas pela coluna, a financeira registrava lucro anual em torno de R$ 90 milhões. Portanto, se esse resultado se mantivesse e os lucros fossem distribuídos integralmente, a fatia de 49% renderia cerca de R$ 44 milhões por ano ao grupo comprador.
Dois dias depois do envio da minuta, Vorcaro avisou Rueda que estava atrasado para um encontro em Brasília. “Atrasou aqui pra liberarem decolagem to decolando agora. Devo pousar 16:30 e vou direto para ai.” Rueda respondeu com seu endereço.
Mensagens citam Paulo Henrique Costa
Em 4 de julho, Rueda mencionou Augusto Lima, então sócio de Vorcaro no Master. Ele também era um dos responsáveis pelo modelo de crédito consignado do banco. “Augusto me chamou queria dividir. Tô voltando p bsb [Brasília]”, escreveu. Em seguida, disse: “Queria alinhar o que falei”.
Depois de duas ligações, Vorcaro enviou seu endereço no Lago Sul. As mensagens, contudo, não esclarecem o que Lima queria dividir. No dia seguinte, quando o BRB anunciou a parceria, Rueda enviou outro recado a Vorcaro: “PH precisando falar c vc”. A referência era a Paulo Henrique Costa.
Segundo os registros, Costa voltou a citar Rueda em 27 de fevereiro de 2025. Na ocasião, o então presidente do BRB disse a Vorcaro que havia tomado um café com o dirigente partidário e precisava falar com ele. No comunicado de julho de 2024, Costa apresentou a parceria como forma de ampliar a atuação da financeira no crédito consignado e nos cartões de benefícios.
“Com essa aliança, estamos não apenas expandindo nossa capacidade de atuação no mercado de crédito consignado e cartões de benefícios, mas também fortalecendo nossa posição como um banco inovador e dinâmico, que passará a oferecer soluções ainda mais robustas e abrangentes para nossos clientes em todo o Brasil.”
Banco Central questionou a operação
A transação avançou em março de 2025, no mesmo período em que o BRB anunciou a compra do Banco Master. No entanto, o Banco Central encontrou resistência à operação. Segundo a coluna, o regulador barrou a transferência de capital após apontar problemas na comprovação da origem dos recursos e levantar objeções ao acordo de acionistas.
O grupo recorreu, mas o recurso ficou sem decisão final. Depois da liquidação do Master e da primeira prisão de Vorcaro, em novembro de 2025, dirigentes do Banco Central se reuniram com representantes do BRB. Conforme fontes ouvidas pela coluna, o diretor Renato Gomes avisou que o regulador cancelaria a operação caso o próprio banco não o fizesse. O BRB anunciou o cancelamento no fim de dezembro daquele ano.
O que disseram os citados
Em nota, Antonio Rueda afirmou que sua atuação nas questões ligadas ao Banco Master ficou restrita à assessoria jurídica. Ele também citou o sigilo profissional. O dirigente, porém, não explicou as mensagens sobre Paulo Henrique Costa e Augusto Lima.
José Ricardo Lemos Rezek afirmou que jamais tratou de qualquer assunto da BRB Financeira com as pessoas citadas. Ele disse ainda que não participou do processo de aquisição e que entrou no negócio depois, como investidor minoritário. Já a defesa de Daniel Vorcaro informou que não se manifestaria sobre as mensagens.



