Aliados de Lula acusam mercado financeiro de chantagem por ajuste fiscal
Críticas cresceram às vésperas da reunião do Copom, enquanto o governo rejeita cortes em programas sociais.

Aliados de Lula intensificaram as críticas ao mercado financeiro diante da pressão por ajuste fiscal no próximo mandato. Integrantes do governo e dirigentes do PT falaram em chantagem, terrorismo e especulação. As declarações ocorreram após a queda da Bolsa e a instabilidade econômica observada depois da reeleição do presidente.
A tensão aumentou às vésperas da reunião do Comitê de Política Monetária, o Copom. O colegiado decide nesta quarta-feira, dia 4, o futuro da taxa básica de juros, hoje em 13,75% ao ano. Economistas, por isso, avaliam que a Selic deve ser mantida, diante das incertezas fiscais.
Críticas ao mercado ganham força
Um dos primeiros a reagir foi o senador eleito pela Bahia e ex-ministro da Casa Civil Rui Costa, do PT. Em entrevista dada na sexta-feira, dia 30, ele questionou a atuação de agentes financeiros na formação de expectativas econômicas. mercado financeiro precisa também pensar no país, afirmou.
Rui Costa também disse que há, na visão dele, especulação e busca de ganhos extraordinários. Além disso, ele relacionou parte das oscilações do mercado a interesses nesse movimento.
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, também criticou a pressão por contenção de despesas. Em entrevista no sábado, dia 31, ele afirmou que o governo não deve aceitar exigências que atinjam políticas sociais. Segundo Boulos, contrapor chantagem de mercado à vontade popular anula a democracia.
Boulos defendeu que eventuais medidas de economia alcancem benefícios tributários, supersalários e emendas parlamentares impositivas. Dessa forma, segundo ele, a população de baixa renda não deve ser afetada por cortes.
PT sobe o tom sobre economia
No domingo, dia 1º, Lula reforçou essa posição em vídeo publicado nas redes sociais. O presidente disse que não pretende cortar programas sociais. Ainda segundo ele, informações sobre redução desses benefícios são falsas.
A ex-presidente do PT e ex-ministra Gleisi Hoffmann também elevou o tom contra o setor financeiro. Ao comentar um artigo do economista André Lara Resende sobre política monetária, ela falou em ofensiva terrorista em torno da situação fiscal brasileira. Gleisi escreveu que analistas confundem o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica.
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou que especulações sobre a economia favorecem setores que apostam contra o governo. Segundo ele, apenas o ministro da Fazenda, Dario Durigan, está autorizado a falar em nome da administração federal sobre política econômica.
Durigan, por sua vez, descartou a hipótese de tabelamento dos juros. A possibilidade ganhou repercussão após notícias sobre uma aproximação entre Lula e André Lara Resende.
Bolsa e juros pressionam o debate
O embate ocorre depois de uma semana de perdas fortes no mercado brasileiro. A Bolsa acumulou queda de 17,5% e teve o pior desempenho semanal desde março de 2020. Naquele período, a pandemia de Covid-19 provocou uma crise financeira internacional.
Também aumentaram a cautela dos investidores a desvalorização do real, a alta dos juros futuros e as dúvidas sobre as contas públicas. Enquanto agentes financeiros cobram previsibilidade fiscal para conter a inflação, integrantes do governo afirmam que juros altos prejudicam o crescimento econômico.
Além disso, a divergência envolve a autonomia do Banco Central. Lula critica o modelo atual e diz que ele amplia a influência do mercado sobre a política monetária. A legislação, no entanto, busca preservar decisões técnicas da autoridade monetária sem interferência política.



