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Rio encerra irmandade de Santo Eloy e relembra joalheiros

A associação de ourives e joalheiros foi dissolvida pelo arcebispo, mas sua trajetória segue ligada ao Centro do Rio.

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Rio encerra irmandade de Santo Eloy e relembra joalheiros
Foto: Reprodução

A irmandade de Santo Eloy chegou ao fim no Rio de Janeiro, após decreto do arcebispo do Rio, Cardeal Dom Orani João Tempesta, na última semana. A decisão encerra uma trajetória ligada aos joalheiros, ourives e prateiros que marcaram o Centro da cidade.

O anúncio saiu na seção de atos de governo do jornal Testemunho de Fé, da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. O texto registrou a dissolução da Associação Pública de Fiéis Venerável Irmandade do Glorioso Santo Eloy.

História no Centro do Rio

A história da irmandade de Santo Eloy ajuda a explicar a presença dos ourives no Centro. A antiga Rua dos Ourives perdeu espaço com as mudanças urbanas e com a abertura da Avenida Rio Branco. Hoje, restam apenas dois trechos, conhecidos como Rua Miguel Couto e Rua Rodrigo Silva.

O nome, porém, continuou na memória da cidade. Na esquina com a atual Rua Sete de Setembro, funcionava o oratório de Santo Eloy, padroeiro dos mestres do ouro e das joias. A imagem do oratório hoje está na Igreja de Santa Luzia.

Uma reportagem publicada em 1936 já recuperava esse endereço. O texto lembrava que a concentração de ourives e prateiros também ajudava a fiscalizar lojas e oficinas, por causa do controle sobre a circulação e a qualidade dos metais preciosos.

O santo dos ourives

Santo Eloy, também chamado de Santo Elói ou Santo Elígio, tem ligação direta com esse ofício. Antes de se tornar bispo de Noyon, na atual França, ele trabalhou como ourives para a corte do rei Clotário II.

Além disso, a tradição religiosa associa o santo a um episódio de habilidade e honestidade. Segundo a hagiografia, ele teria produzido dois tronos com o metal que recebeu para fazer apenas um. Sua festa ocorre em 1º de dezembro.

Para os profissionais cariocas, a devoção também fazia parte da rotina de trabalho. Assim, a irmandade reunia fé, ofício e a confiança entre quem entregava o metal e quem o transformava em joias.

Regras, culto e ofício

As irmandades eram associações de fiéis leigos, com dirigentes, regras e obrigações próprias. Elas mantinham celebrações, cuidavam do culto e também podiam oferecer assistência material e espiritual.

Segundo a historiadora Beatriz Catão Cruz Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, essas irmandades combinavam devoção, caridade e participação na regulamentação das atividades profissionais. Dessa forma, trabalho e religião apareciam na mesma organização social.

O Rio teve outras associações semelhantes. Trabalhadores da madeira se reuniam sob São José, enquanto músicos se ligavam a Santa Cecília. Ferreiros e serralheiros adotavam São Jorge, e mercadores recorriam à devoção de Nossa Senhora da Lapa.

Os ourives, por sua vez, encontravam em Santo Eloy o patrono de sua arte. Inclusive, essa ligação aparecia até na escolha dos representantes profissionais.

Documentos e memória

Um regulamento de 1821, reproduzido em reportagem de 1936, orientava que os mestres deveriam se reunir na igreja onde estivesse a irmandade, na tarde de 1º de dezembro. O encontro servia para a eleição da corporação dos ourives e relojoeiros.

A organização também aparece em um documento de 15 de dezembro de 1760. O parecer, preservado no Arquivo Histórico Ultramarino e identificado no catálogo do Projeto Resgate, da Biblioteca Nacional, trata do pedido dos mestres ourives do ouro do Rio para confirmar o compromisso da irmandade e do culto de Santo Elói.

O fim da irmandade de Santo Eloy encerra uma tradição mantida por gerações. Porém, a memória dos joalheiros católicos segue ligada ao Centro, à rua do ofício e ao santo que os acompanhava.

Em épocas diferentes, vínculos compartilhados aproximam pessoas e encontram expressão na devoção.