Mulher Banana, ícone do funk e da cena trans, morre aos 49 anos
Julyanna Barbosa, da Furacão 2000, foi encontrada morta em casa, em Nova Iguaçu; causa ainda depende de perícia.

A morte de Mulher Banana, nome artístico de Julyanna Barbosa, mobilizou artistas e fãs nesta sexta-feira (30/10). A cantora foi encontrada morta em casa, no bairro Engenho Pequeno, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Ela tinha 49 anos e era conhecida também como Garota X.
Registrada como Julyana de Souza Pontes, a artista teve a morte confirmada por familiares. A causa ainda não foi esclarecida e depende do resultado da perícia. Na manhã deste sábado (31/10), o corpo seguia no Instituto Médico Legal (IML), segundo informações divulgadas pelo UOL.
Trajetória no funk carioca
Mulher Banana ganhou projeção nacional nos anos 2000, quando integrou a equipe Furacão 2000. Antes disso, começou a trajetória em uma rádio carioca, onde fazia paródias de músicas conhecidas. As versões faziam sucesso entre os ouvintes, que passavam a ligar para pedir novas interpretações.
Inspirada por Xuxa, ela adotou o nome artístico Garota X. Em 2002, fechou contrato com a Furacão 2000, equipe que ajudou a expandir o funk carioca para além das comunidades e dos bailes do Rio de Janeiro. A estreia nos palcos veio em 2003 e enfrentou rejeição de parte do público.
Durante uma apresentação com fantasia de colegial, Julyanna sofreu hostilidade e teve latinhas arremessadas em sua direção. O episódio refletiu o preconceito contra uma mulher trans no palco. Em entrevista publicada pela revista Vice em 2015, ela resumiu sua resposta à discriminação com uma frase que marcou sua trajetória: “A arma é meu microfone e minhas letras são minhas munições”, declarou.
Representatividade e legado
O nome Mulher Banana surgiu na fase em que as mulheres-fruta ganhavam espaço no funk brasileiro. Julyanna compôs uma música com esse título, e a faixa virou sua marca artística. Além disso, a canção ganhou espaço em apresentações e DVDs da Furacão 2000.
O repertório dela incluía músicas como “Assumida”, “Mundo Gay”, “Peitinho” e “Coraçãozão”. Em suas letras, a cantora tratava de identidade de gênero, sexualidade e preconceito. Em “Assumida”, por exemplo, ela narrou descobertas pessoais, lembranças da infância e a relação com os pais.
Ao longo da carreira, Julyanna passou a ocupar um espaço raro para artistas trans. Em entrevista publicada em dezembro de 2017, ela afirmou: “Ajudei a construir esse momento. Fui a precursora deste movimento transgênero”, disse. Na mesma ocasião, citou nomes como Pabllo Vittar, Mulher Pepita, Lia Clark e Gloria Groove.
Violência e homenagens
A vida da cantora também teve episódios de violência. Em outubro de 2018, ela denunciou ter sido espancada por um grupo de homens em Nova Iguaçu, quando voltava para casa. Segundo o relato dela, os agressores fizeram insultos contra pessoas LGBTQIA+ e citaram Jair Bolsonaro antes do ataque.
Julyanna levou dez pontos na cabeça e registrou a ocorrência na polícia. Depois, ela relatou a agressão, mas evitou afirmar uma motivação político-partidária definitiva. “Nem sei se a agressão teve a ver com política. Eles falaram o nome de Bolsonaro, mas não posso dizer se eles são eleitores ou não”, afirmou na época.
Nos últimos anos, Mulher Banana também cuidava de animais abandonados, principalmente gatos. Ela mantinha um espaço chamado de santuário, onde acolhia os resgatados. Esse trabalho também marcou sua presença nas redes sociais.
A morte de Mulher Banana gerou mensagens de luto de artistas do funk e da comunidade LGBTQIA+. Tati Quebra Barraco escreveu: “Uma grande perda para o mundo do funk! Nossa querida Mulher Banana nos deixou. Descanse em paz!” MC Xuxú também homenageou a cantora e a definiu como “uma travesti que fez história”. Até a divulgação das primeiras informações, não havia detalhes sobre velório e sepultamento.