Feito Pipa: crítica ao filme brasileiro sobre infância e identidade
Longa acompanha Gugu no interior do Ceará e explora afeto, repressão e a relação com a avó.

Feito Pipa é o representante oficial do Brasil na disputa por uma vaga de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. A produção acompanha Gugu, um menino de 11 anos que vive no interior do Ceará, às margens de uma barragem. A história também destaca a relação dele com o pai, Batista, e com a avó, Dilma.
O filme trabalha a identidade do protagonista desde as primeiras cenas. Gugu gosta de adesivos, brilhos e adereços, mas esconde esses traços na presença do pai. Além disso, a trama mostra como o medo do julgamento afeta o comportamento do menino.
Relação com o pai
Batista mora com outra mulher e a meia-irmã de Gugu. Ele demonstra incômodo com a sexualidade do filho e não consegue se referir ao tema com clareza. Enquanto os colegas o hostilizam com ofensas, o pai prefere compará-lo a um palhaço.
O futebol também tem peso na narrativa. Gugu gosta do esporte e joga bem, porém o pai passa a acompanhar os jogos com um objetivo específico. Segundo a história, Batista vê no futebol uma forma de tentar “curar” o filho, e não de incentivar sua paixão.
Essa postura cria uma relação marcada por controle e frustração. O menino percebe a vigilância constante, e isso interfere até na atividade que ele mais aprecia. Assim, o filme mostra como a pressão familiar transforma um prazer em cobrança.
O papel de Dilma
Entre os dois, Dilma surge como a principal referência afetiva de Gugu. A avó respeita a individualidade do neto, cuida dele e também compartilha sua própria rotina. Dessa forma, o vínculo entre os dois combina proteção e parceria.
O conflito cresce quando Dilma passa a apresentar sinais de um possível Alzheimer ainda sem diagnóstico. Gugu então sente que precisa proteger a avó, justamente a pessoa que sempre o acolheu. Ao mesmo tempo, ele teme perder esse apoio e voltar ao convívio mais rígido do pai.
A narrativa ganha ainda mais peso quando Dilma começa a não reconhecer o neto. O filme trata esse momento de forma abrupta, sem preparar uma transição longa. Portanto, o impacto emocional cresce rapidamente, junto com a sensação de perda vivida por Gugu.
Drama e sensibilidade
O longa acerta nas relações entre os personagens e também nas atuações. A direção alterna momentos leves e situações desconfortáveis, sem parecer forçada. Além disso, a construção do drama valoriza o afeto entre Gugu e a avó.
Um dos pontos mais fortes está justamente na oposição entre pai e avó. Batista sabe quem o filho é, mas rejeita sua identidade. Dilma, por outro lado, sempre o aceitou, porém agora já não consegue reconhecê-lo. Essa diferença sustenta a força emocional de Feito Pipa.
O filme também se destaca por mostrar como uma criança lida com um dilema adulto. Gugu tenta proteger a avó, enquanto enfrenta a repressão do pai. Assim, a história revela uma convivência marcada por amor, medo e perda.
Embora a produção possa não avançar nas premiações internacionais mais conhecidas, ela integra um bom momento do cinema brasileiro. Para quem acompanha lançamentos nacionais, Feito Pipa merece atenção pela sensibilidade e pela construção dos personagens.