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Casa Alemã vira Galeria Carioca e sobreviveu à guerra no Rio

Magazine do Centro passou por confisco, ataques e mudança de nome, mas manteve a operação na Rua do Ouvidor.

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Casa Alemã vira Galeria Carioca e sobreviveu à guerra no Rio
Foto: Reprodução

A Casa Alemã, depois chamada Galeria Carioca, atravessou guerras, ataques e mudanças de nome no Centro do Rio. A história começou em 1883, em São Paulo, e passou pela Rua do Ouvidor antes de chegar à Cinelândia. Mais tarde, o magazine também enfrentou medidas do governo de Getúlio Vargas.

Quem dobrava a Rua do Ouvidor para a Gonçalves Dias encontrava um grande comércio de roupas, tecidos e artigos para a casa. Além disso, a loja vendia enxoval, cama, mesa, perfumaria, malharia, alfaiataria e tapeçaria. A Casa Alemã virou referência de variedade e mudou de endereço ao longo das décadas.

Origem em São Paulo

A empresa nasceu com Daniel Heydenreich, que iniciou negócios com tecidos, linhos e rendas. A marca surgiu em 1883, em São Paulo, e cresceu com a expansão da cidade ligada ao café. Depois, o negócio passou por outras ruas e ganhou estrutura de grande magazine.

O comércio virou empresa de família com a participação dos irmãos Adolf, Hermann e Traugott Heydenreich. Em comunicado de 1920, Max Schädlich e Charles Obert aparecem na administração. Já os Heydenreich figuravam entre os sócios comanditários, ligados ao capital do negócio.

O mesmo comunicado informou a continuidade da marca Casa Alemã após mudanças societárias. A rede já incluía São Paulo, Rio de Janeiro, Santos, Campinas, Ribeirão Preto e Jaú. Portanto, a presença da empresa já ultrapassava o mercado paulista.

Endereços no Rio e no Centro

No Rio, antes da Cinelândia, a loja funcionou na Rua da Carioca, nos números 27 e 29. O ponto ficava perto do Largo da Carioca e do Morro de Santo Antônio. Ali, a casa era inquilina da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência.

Em 1925, um anúncio informou liquidação anual com desconto especial para artigos não remarcados. As vendas ocorriam somente à vista. Assim, a casa usava o preço reduzido como atração comercial no Centro do Rio.

Em outubro de 1926, o endereço também apareceu em um episódio policial. Ladrões teriam alcançado o estabelecimento pelo lado do morro e violado o cofre com força elétrica e explosivos. Eles levaram uma quantia pouco superior a um conto de réis.

Em 22 de janeiro de 1927, a empresa inaugurou novas instalações no Edifício Heydenreich, na Praça Floriano, na Cinelândia. O prédio tinha frente também para a Rua Álvaro Alvim. A imprensa tratou a construção como um arranha-céu, em meio à modernização da área.

Guerra, confisco e mudança de nome

Antes da Segunda Guerra, a Casa Alemã já estava instalada na Rua do Ouvidor, onde mudou-se em 1934. No novo espaço, o magazine reuniu clientes, diretores e convidados na inauguração. Além disso, o endereço reforçou a ligação da loja com o comércio elegante da região.

Quando a guerra avançou, o nome alemão passou a gerar desconfiança. Em julho de 1941, a lista negra comercial dos Estados Unidos incluiu a Casa Alemã de São Paulo e suas filiais no Brasil. No ano seguinte, o Decreto-Lei nº 4.166 alcançou bens e direitos de alemães, italianos e japoneses.

Em 12 de março de 1942, manifestantes apedrejaram as vitrines da loja na Ouvidor. A reação ocorreu após o afundamento do navio brasileiro Cairu. Depois disso, entre março e julho, surgiu o novo nome Galeria Carioca.

Em agosto de 1942, os Estados Unidos incluíram a Galeria Carioca de Modas S.A. em restrições. A empresa também apareceu em listas publicadas na Nova Zelândia. Em 1º de outubro de 1943, um decreto incluiu a sociedade entre as sujeitas à liquidação compulsória.

A medida não eliminou o comércio físico. A loja continuou funcionando, embora sob controle e vigilância. Em relatório de 1945 ao Senado dos Estados Unidos, a Galeria Carioca apareceu entre as empresas que tiveram o controle inimigo eliminado por ação governamental.

A remodelação da Galeria Carioca

Em 1949, a Galeria Carioca reabriu inteiramente remodelada. A recepção reuniu convidados em instalações descritas como luxuosas e bem decoradas. Entre os administradores mencionados estava André Lazare Levy.

Um anúncio daquele ano mostrou a divisão interna do magazine. A loja concentrava camisaria, perfumaria e bijuteria. A sobreloja abrigava artigos para bebês, enquanto o segundo andar reunia modas e malharia.

O terceiro andar ficava com tapeçaria e decoração. O quarto reunia lingerie, cama e mesa. Já o quinto concentrava esporte e alfaiataria. Dois elevadores faziam a ligação entre as seções.

A publicidade também reforçava o alcance comercial da casa. No início de 1950, a loja anunciava modelos novos para o Ano-Novo e liquidações de verão. Além disso, oferecia descontos de 30% a 50% e divisão em dez pagamentos.

Havia ainda atendimento por reembolso postal para clientes do interior. Em algumas campanhas, a casa prometia até lavagem gratuita em parceria com a Tinturaria Manhattan. Dessa forma, a Galeria Carioca consolidava sua presença no Centro do Rio.

Os anúncios também destacavam desfiles, manequins vivos e vitrines na Gonçalves Dias. A loja chegou a fornecer figurinos para o Theatro Municipal e vestidos para o cinema. Assim, o magazine se manteve ligado à moda e ao movimento urbano carioca.