Dívidas das famílias atingem maior nível desde 2012, diz BC
Banco Central aponta alta dos ativos problemáticos e prevê crédito mais pressionado em 2026.

O peso das dívidas das famílias no orçamento atingiu o maior nível em 21 anos, segundo o Banco Central. Além disso, a parcela dos empréstimos com problemas de pagamento chegou a patamares recordes em junho de 2026.
O dado aparece no Relatório de Estabilidade Financeira do BC. Os chamados ativos problemáticos somavam 9,2% do crédito às pessoas físicas em junho. A pressão cresce, sobretudo, entre as famílias de menor renda.
O indicador reúne operações com atraso superior a 90 dias. Também entra nesse cálculo o crédito com sinais de que não será quitado integralmente. Pouco antes de junho, o índice chegou a 9,3%, o maior da série iniciada em 2012.
Cartão e crédito pessoal puxam alta
O avanço ocorreu mesmo com a queda do desemprego e o aumento do salário médio. De acordo com o BC, a piora está ligada principalmente a modalidades mais caras. Entre elas, estão o cartão de crédito e o empréstimo pessoal sem garantia.
Todas as modalidades analisadas registraram piora no primeiro semestre. Quatro alcançaram os maiores níveis de suas séries: cartão de crédito, crédito rural, financiamento de veículos e consignado. No crédito pessoal não consignado, a taxa chegou a 14,9%.
No cartão de crédito, os ativos problemáticos atingiram 13,2% e encerraram junho em 12,7%. No crédito rural, o percentual foi de 10,3%. Já no financiamento de veículos, ficou em 8,5%, enquanto o consignado marcou 5%.
Em junho, 20,3 milhões de pessoas se enquadravam no critério de “endividados de risco”. Esse grupo correspondia a 17% dos devedores do sistema financeiro. Além disso, o número cresceu 75% em relação a junho de 2021.
Mudança contábil altera o cenário
O BC aponta a inadimplência como principal fator para o avanço dos ativos problemáticos. No entanto, parte da alta também se relaciona à mudança nas regras de contabilização das operações.
Desde janeiro de 2025, a Resolução 4.966 do Conselho Monetário Nacional deixou aos bancos a decisão sobre quando reconhecer uma dívida como perdida. Dessa forma, créditos em atraso passaram a permanecer mais tempo nos balanços. Isso elevou os indicadores.
Pelos cálculos do Banco Central, sem essa alteração a inadimplência seria 0,78 ponto percentual menor em junho. O efeito representa cerca de 45% do aumento observado desde dezembro de 2024. Ainda assim, o relatório ressalta que a inadimplência teria avançado mesmo nas regras anteriores.
[Banco Central] afirma que a materialização de risco aumentou e deve continuar pressionada no curto prazo. As estimativas indicam que os ativos problemáticos devem seguir elevados na maioria das modalidades ao longo de 2026.
Os bancos também sinalizam condições mais restritivas para a concessão de crédito às famílias no segundo semestre. Diante disso, o BC estuda medidas macroprudenciais para reduzir o superendividamento. Entre as possibilidades, estão exigências prudenciais mais rigorosas para linhas de maior risco.
Mesmo assim, o Banco Central avalia que não há risco relevante para a estabilidade financeira. Segundo a instituição, os bancos reforçaram as provisões para perdas. Além disso, mantêm níveis confortáveis de capital e liquidez.



