A Imperial levou moda do Centro à elegância de Copacabana
Casa de moda marcou a Gonçalves Dias e depois acompanhou a expansão comercial de Copacabana.

A história da A Imperial começa no Centro do Rio e ganha força em Copacabana. A casa de moda marcou a Rua Gonçalves Dias e, depois, acompanhou a expansão comercial da Zona Sul.
O endereço, entre a Ouvidor e a Sete de Setembro, fazia parte de uma área ligada ao comércio e aos passeios. Ali, o número 56 recebeu uma loja que apresentou novidades da moda internacional às cariocas.
Inauguração no Centro
No sábado, 22 de dezembro de 1923, a loja dos comerciantes Silvestre José Simões e Eduardo Alijó abriu as portas às duas da tarde. A revista Para Todos registrou a presença da sociedade carioca, os vestidos e o cuidado com as vitrines. Além disso, destacou as instalações e a experiência dos sócios da firma Simões & Alijó.
A escolha da Gonçalves Dias colocava a loja em uma vizinhança conhecida pela elegância. As freguesas podiam comprar vestidos, observar chapéus e acompanhar coleções sem sair daquela região. Assim, a Imperial entrou no circuito de lojas, confeitarias e escritórios que movimentavam o Centro.
Décadas depois, a pesquisa da historiadora Ana Claudia Lourenço Ferreira Lopes, apresentada à PUC-Rio, ajudou a reconstituir o interior da casa. Havia grandes vidros importados da Bélgica, cortinas de veludo, iluminação indireta e uma coroa no teto do salão. Também existiam oficina de costura, área administrativa e equipamentos refrigerados para conservar as peles.
Desfiles, anúncios e vitrines
Os desfiles tinham papel importante na rotina da loja. Segundo o antigo funcionário Francisco Azevedo, ouvido pela pesquisadora, mulheres do teatro eram contratadas para apresentar as coleções. Enquanto isso, garçons serviam coquetéis, e Darcy Vargas aparecia entre as frequentadoras lembradas por ele.
A Imperial também buscava as leitoras em casa. Em revistas ilustradas, seus reclames ligavam o nome da loja às novidades estrangeiras e às ocasiões sociais. Em Vida Doméstica, em 1939, a publicidade associava Simões & Alijó a Paris e Nova York. Já em 1944, o material incluía vestidos de cerimônia, noivas e crianças.
Nos anos seguintes, a marca continuou presente em páginas de moda. Em 1949, anúncios citaram Christian Dior e Pierre Balmain. Paris aparecia ao lado de Nova York e Hollywood. Em 1952, o número 417 trouxe sugestões para formatura e referências a Jacques Griffe, Julia Adams e Susan Ball.
Enquanto mantinha sua força no Centro, a casa percebeu o potencial de Copacabana. O bairro já reunia clientela, movimento e desejo de compras perto de casa. Silvestre Simões explicou essa escolha em entrevista publicada em 8 de fevereiro de 1941.
A chegada a Copacabana
Naquela conversa, ele disse que faltava a Copacabana um comércio à altura das necessidades do bairro. Os sócios, inclusive, preferiram abrir a filial ali a investir em cidades como São Paulo ou Belo Horizonte. Ele também lembrou as praias do começo do século e comparou a paisagem antiga com o crescimento que viu depois.
Na esquina da Rua Figueiredo Magalhães com a então Avenida Copacabana, a inauguração virou notícia social. O Correio da Noite apresentou a loja como um centro de elegância e aproximou a proposta da casa de destinos como Nice, Trouville e Monte Carlo. Dessa forma, a praia carioca ganhava uma linguagem ligada ao prestígio internacional.
As roupas anunciadas na abertura mostram essa adaptação. Havia shorts, trajes de tênis, blusas leves, saias plissadas e maiôs coloridos. A filial atendia, portanto, a um público ligado ao sol, ao esporte e à vida próxima da praia.
A expansão não interrompeu o vínculo com a Gonçalves Dias. Em dezembro de 1945, a Imperial Palace abriu na mesma rua, na esquina com a Ouvidor. Conforme os depoimentos reunidos por Ana Claudia Lopes, a nova loja tinha proposta mais esportiva, e anúncios também registram a venda de artigos infantis.
Trajetórias que atravessaram a loja
A Imperial também marcou a vida de profissionais que passaram por seus balcões. Celeste da Veiga Teixeira chegou ao Rio em 1941, aos 23 anos, e conseguiu ali seu primeiro emprego no Brasil, como vendedora. Depois, ela abriu a Celeste Modas, em Copacabana, em 18 de dezembro de 1948.
Francisco Azevedo seguiu caminho parecido. Ele trabalhou como subchefe de salão da Imperial e desenvolveu experiência com vitrines. Em 1948, foi para a Étoile, aberta em Copacabana por Luiz Silva, também antigo funcionário da casa.
A presença da loja alcançou ainda a memória de compras em Ipanema. O livro Ipanema de rua em rua, organizado por Marilena Balsa e citado pelo pesquisador Fábio Pessanha Bila, lembra moças que buscavam lojas como a Imperial e a Mônaco no bairro vizinho. Assim, Copacabana se afirmava como destino comercial para além de seus moradores.
Já nos anos 1960, o nome da loja continuava circulando. A tese de Gabriela Soares Cabral identifica A Imperial Modas entre os créditos do editorial “O estilo Claudia”, publicado no segundo número da revista Claudia, em novembro de 1961. Logo, a marca seguia associada a novas gerações de consumidoras.
Voltar à Gonçalves Dias e à esquina de Copacabana é rever uma mudança do Rio. A elegância que começou no Centro ganhou outros usos, acompanhou a vida de praia e entrou em uma Zona Sul em expansão. Por isso, a história da A Imperial ajuda a entender como o comércio também moldou a cidade.