ClickRio
Últimas

Allan Sant’Anna explica por que o Rio perde grandes shows

Sócio da Ingresse afirma que custos, regras sobre taxa de conveniência e concorrência com São Paulo afetam a cidade.

fabricio · 5 min de leitura
Allan Sant’Anna explica por que o Rio perde grandes shows
Foto: Reprodução

Rio perde grandes shows por causa de custos, regras da taxa de conveniência e da concorrência com outros mercados, na avaliação do empresário Allan Sant’Anna. Sócio da Ingresse, ele diz que a cidade perdeu competitividade em relação a São Paulo e cita a legislação fluminense como um dos fatores que pesam na escolha dos eventos.

“Meu ano novo começa em setembro”, afirma Sant’Anna ao explicar o ritmo do setor de entretenimento ao vivo. Para ele, essa é a época em que contratos são fechados, campanhas começam e a venda de ingressos ganha força para a temporada que se estende até março. O período, segundo o empresário, é decisivo para a indústria de festas, shows e outras atrações.

Aos 47 anos, Sant’Anna atua em diferentes frentes do mercado de eventos. Além da Ingresse, ele participa da Go Event, da Places, da CenoFactory e da Torres Segurança Privada e Patrimonial. O grupo de empresas também inclui o OH HUB, plataforma voltada ao setor de eventos e hospitalidade, além de iniciativas ligadas a hospedagem, cashback, câmeras ao vivo do mar e ao Mio Boteco Italiano, no Leblon.

Natural do Catete, na Rua Corrêa Dutra, ele estudou no Colégio Santa Úrsula e cursou Publicidade e Propaganda na Facha. Antes de concluir a faculdade, já tinha aberto o primeiro negócio próprio, a RioFestas, aos 18 anos. Depois, em 2005, criou o Ingresso Certo, empresa que se tornou uma das bases de sua trajetória no setor.

O empresário diz que sempre pensou grande. “Você pode sonhar pequeno ou sonhar grande”, afirma. Segundo ele, o objetivo inicial era tornar a empresa a maior ticketera do Rio de Janeiro, meta que, de acordo com sua trajetória, foi alcançada por volta dos 30 anos. Mais tarde, com a fusão com a Ingresse, passou a integrar uma operação de alcance latino-americano.

Leia também: entenda como funciona o mercado de eventos no Brasil

Custos altos e concorrência digital pressionam o setor

Apesar da expansão dos negócios, Sant’Anna avalia que o entretenimento ao vivo enfrenta dificuldades. Na visão dele, o público hoje precisa considerar não apenas o valor do ingresso, mas também transporte, alimentação e bebidas, o que encarece a saída de casa. Isso, segundo ele, transforma programas que antes eram frequentes em escolhas pontuais.

Outro desafio é a concorrência das redes sociais, dos vídeos curtos e das plataformas digitais. Para o empresário, esses canais disputam a atenção do consumidor com uma proposta imediata, sem exigência de deslocamento ou compra de ingresso. Ele também aponta a busca por uma rotina mais saudável, com sono regular e exercícios pela manhã, como um fator que altera hábitos noturnos.

O clima entra nessa conta. Em uma cidade em que eventos ao ar livre têm peso importante, períodos chuvosos podem afetar a circulação e a operação das atrações. Sant’Anna menciona ainda efeitos associados ao El Niño como variável de preocupação para o setor.

Na avaliação dele, o Rio precisa disputar não apenas dinheiro, mas também tempo e disposição do público. Por isso, diz que não basta convencer as pessoas de que uma atração vale o preço do ingresso; é preciso mostrar que a experiência presencial compensa o esforço de sair de casa.

Regra sobre taxa de conveniência é alvo de crítica

Quando o assunto é a chegada de grandes artistas ao Rio, Sant’Anna afirma que a cidade perdeu espaço para outros mercados. Ele aponta a legislação estadual de 2012, de autoria da então deputada estadual Clarissa Garotinho, que estabeleceu regras sobre a taxa de conveniência cobrada na venda de ingressos.

Segundo o empresário, o limite no Rio é de 10%, enquanto em São Paulo não haveria a mesma restrição e, em shows internacionais, a cobrança de 20% seria uma prática comum. Na sua avaliação, essa diferença afeta a margem de negociação e pesa na decisão sobre onde realizar uma apresentação.

Para Sant’Anna, a mudança na regra poderia aproximar o Rio de condições que, em sua visão, são adotadas em outros mercados. Ele argumenta que a cidade tem atributos turísticos, identidade cultural e estrutura para grandes apresentações, mas que isso não basta se a conta não fechar para produtores, artistas e empresas envolvidas.

O empresário também vê dificuldades no ambiente de negócios do Rio. Ele cita burocracia e bairrismo como obstáculos, além da concentração de capital fora do estado. Na comparação com São Paulo, considera o ambiente paulista menos burocrático e mais fácil para fazer negócios.

“Perdemos cada vez mais as melhores cabeças para São Paulo”, afirma. Mesmo assim, Sant’Anna diz que o turismo vive um momento mais positivo e que a cidade voltou a aproveitar melhor seu potencial. Para ele, o desafio é fazer com que esse movimento também fortaleça o mercado de eventos e ajude a manter o Rio competitivo na disputa por grandes shows.

“Para quem está começando: seja honesto, prometa o que você pode cumprir e comece debaixo, pequeno, mas sonhe grande.”