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Meta é denunciada ao Congresso dos EUA por suspeita em eleição

Instituto Vladimir Herzog e CTRL+Z pedem investigação sobre possíveis interferências nas plataformas da empresa durante a disputa presidencial.

fabricio · 5 min de leitura
Meta é denunciada ao Congresso dos EUA por suspeita em eleição
Foto: Reprodução

A Meta e eleição voltou ao centro do debate nesta quarta-feira (21), depois que o Instituto Vladimir Herzog (IVH) e a organização CTRL+Z enviaram uma carta ao Congresso dos Estados Unidos pedindo investigação sobre possíveis interferências das plataformas digitais no processo eleitoral brasileiro. O documento cita suspeitas de favorecimento à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) e foi apresentado a quatro dias do segundo turno, marcado para domingo (25).

As entidades afirmam que a apuração deve considerar episódios envolvendo restrições a conteúdos favoráveis ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), diferenças no funcionamento de ferramentas de inteligência artificial e publicidade eleitoral financiada fora do país. A empresa responsável pelo Instagram, Facebook e WhatsApp nega favorecimento político e diz que os problemas foram causados por incidentes técnicos.

Entre os pontos levados aos parlamentares, a CTRL+Z diz ter reunido 1.121 relatos de usuários sobre falhas nas plataformas. Segundo a organização, os casos incluíram bloqueios de contas, limitações de funcionalidades e redução do alcance de publicações. De acordo com o levantamento, as restrições atingiram principalmente perfis que demonstravam apoio a Lula, além de jornalistas, comunicadores independentes e entidades da sociedade civil.

As entidades também mencionam falhas reconhecidas pela própria Meta em suas ferramentas de inteligência artificial. Conforme a carta, a empresa admitiu um problema que permitia a geração de determinadas imagens eleitorais ligadas a Flávio Bolsonaro, mas impedia a criação de conteúdos equivalentes envolvendo Lula. As organizações querem saber se houve apenas erro técnico ou outros fatores no tratamento dado às candidaturas.

Outro levantamento citado é o do NetLab, laboratório de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O estudo identificou 1.613 anúncios de conteúdo político-eleitoral impulsionados do exterior entre julho e setembro de 2026 nas plataformas da Meta. As páginas responsáveis pelas publicações estavam, principalmente, nos Estados Unidos, mas também em países como Itália, México, Bangladesh e Colômbia.

Diante desses dados, o Instituto Vladimir Herzog e a CTRL+Z pedem que o Congresso estadunidense cobre informações sobre a identidade dos responsáveis pelos pagamentos e sobre os mecanismos usados pela empresa para detectar propaganda eleitoral irregular. As organizações também defendem a preservação de registros digitais e a realização de auditorias independentes nos sistemas de recomendação, moderação e inteligência artificial.

Disputa com o TSE e pressão sobre a Meta

A iniciativa internacional acontece em meio a uma disputa judicial entre a Justiça Eleitoral brasileira e a Meta. Na sexta-feira (14), o ministro Marco Aurélio Bellizze, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que a empresa garantisse tratamento isonômico às candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro. A decisão foi confirmada por unanimidade pelo plenário no dia seguinte.

Na segunda-feira (19), o tribunal deu novo prazo de 24 horas para que a Meta comprovasse as medidas adotadas. A multa diária em caso de descumprimento foi elevada para R$ 1 milhão. O objetivo, segundo a Justiça Eleitoral, é assegurar condições equivalentes de divulgação de conteúdos nas plataformas durante a reta final da campanha.

A pressão aumentou após a divulgação de mensagens internas obtidas em apuração jornalística. Segundo esse material, funcionários da companhia reconheceram que contas ligadas a Lula haviam sido prejudicadas por restrições no Instagram. As comunicações também apontaram que o perfil de Flávio Bolsonaro apareceu indevidamente em recomendações algorítmicas no Instagram e no WhatsApp.

Em um dos episódios, a conta oficial do presidente ficou impedida de impulsionar publicações já existentes por quase 24 horas. A campanha petista estimou que o problema comprometeu o alcance potencial de aproximadamente 1,3 milhão de pessoas. A Meta reconheceu incidentes, mas negou que eles tenham representado interferência deliberada na eleição.

Em comunicado divulgado no sábado (16), a empresa afirmou que os problemas tiveram causas distintas e que seus sistemas não foram desenvolvidos para distribuir conteúdos de acordo com a orientação ideológica dos usuários. As explicações, porém, não encerraram os questionamentos das entidades brasileiras, que defendem uma investigação independente.

Entidades falam em soberania brasileira

O Instituto Vladimir Herzog também relatou preocupação com possíveis interferências externas no processo eleitoral brasileiro. Na terça-feira (20), representantes da entidade se reuniram com integrantes de sete embaixadas e da Delegação da União Europeia no Brasil para apresentar denúncias relacionadas à atuação do governo de Donald Trump e alertar para o risco de os Estados Unidos não reconhecerem o resultado das eleições brasileiras.

Segundo o IVH, os representantes diplomáticos demonstraram preocupação com as informações apresentadas e disseram que permaneceriam abertos ao recebimento de novas denúncias. Na carta enviada ao Congresso dos EUA, o instituto e a CTRL+Z pedem ainda que os parlamentares reafirmem o respeito à soberania brasileira e cobrem das empresas sediadas nos Estados Unidos o cumprimento da legislação eleitoral do Brasil.

A mobilização ocorre na reta final de uma eleição marcada pela disputa nas redes sociais e pelo debate sobre a influência das plataformas digitais na formação do voto. As entidades afirmam que a análise dos dados é necessária para esclarecer se houve tratamento desigual entre os candidatos e para preservar os registros usados na campanha.