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Keiko Fujimori quer retirar ‘ideologia’ de textos escolares no Peru

Presidente diz que o currículo precisa de 'dados e estatísticas'; críticos veem risco de controle de narrativa sobre o conflito dos anos 1990.

fabricio · 3 min de leitura
Keiko Fujimori quer retirar ‘ideologia’ de textos escolares no Peru
Foto: Reprodução

A presidente do Peru, Keiko Fujimori, afirmou na quarta-feira (14) que os materiais didáticos do país passarão por cortes para eliminar qualquer tipo de ideologia. A declaração foi dada durante um evento em Lima, dois dias depois de ela anunciar regras rígidas de vestimenta e aparência para estudantes de escolas públicas.

“Assim como anunciamos que os alunos terão que vir impecáveis, não somente haverá corte de cabelo, mas também corte da ideologia que estava nesses textos escolares”, disse a presidente.

Revisão dos textos já está em andamento

Segundo Keiko, o currículo precisa ser modernizado e conter “dados, estatísticas e informações reais”. Ela acrescentou que a revisão já está em curso, conforme anunciou o ministro da Educação, e que os próximos livros sairão “sem nenhum tipo de ideologia”.

Até o momento, porém, o governo deu poucos detalhes sobre como isso será feito. A vice-ministra de Educação, Miriam Ponce, afirmou que os textos vão se concentrar na importância do desenvolvimento integral das pessoas. De acordo com ela, os que apresentam “certos aspectos ideológicos” estão sendo revisados.

Ponce disse ainda que o objetivo é estimular a análise crítica dos estudantes a partir de conteúdos objetivos, especialmente no ensino de história.

Ministro questiona termo “guerra civil”

O ministro da Educação, José Antonio Chang, reafirmou que não haverá “interpretação ideológica da história”. Em seguida, ele afirmou que o país vai recorrer ao “rigor da história científica” para que os alunos formem a própria opinião.

Ao tentar exemplificar a mudança, Chang questionou o uso da expressão “guerra civil” para descrever o conflito entre o Estado e grupos guerrilheiros na década de 1990. Para ele, a educação não pode ter “conotações ideológicas” nem interpretações da história “de interesse próprio”.

O exemplo tem peso especial para a presidente. Isso porque ela é filha de Alberto Fujimori, que governou o Peru de 1990 a 2000 e comandou a repressão a esses grupos. Dois massacres ocorridos na época, além de outros crimes, resultaram em uma pena de 25 anos de prisão. Ele cumpriu 16 anos antes de ser libertado por indulto humanitário, em 2023, e morreu em setembro de 2024.

Críticas ao plano

Como era esperado, o anúncio provocou reações. Sheridan Medina Cabrera, diretora da organização Enciende Educación, escreveu nas redes sociais que, sem critérios rigorosos, a proposta pode virar uma “ferramenta de controle de narrativa”.

“A denominação do conflito armado interno e as referências às responsabilidades por violações de direitos humanos não são detalhes menores. Quando se fala em substituir essa denominação por ‘terrorismo’, é necessário se perguntar que relato histórico se deseja construir”, afirmou.

As regras de vestimenta, anunciadas na segunda-feira (12), também foram contestadas. Elas proíbem maquiagem, esmalte, celular, cabelos “excessivamente” longos ou tingidos e saias consideradas curtas. Em resposta, Keiko disse na quarta que o debate mostra “quem está a favor da disciplina, em oposição à desordem”.

Relação com a imagem do pai

Ao longo da carreira política, iniciada com a eleição para deputada em 2006, Keiko alternou o reconhecimento de erros do pai e a defesa de seu legado como político de linha-dura. Em 2016, por exemplo, ela admitiu violações de direitos humanos durante o governo dele.

Neste ano, no entanto, a estratégia de enaltecer Alberto Fujimori se mostrou eficaz, em meio a uma explosão de crimes de extorsão e ao aumento no número de homicídios no país. No dia do primeiro turno, em abril, ela visitou o túmulo do pai e declarou que era a primeira eleição sem ele e sem a mãe.