bolsonaro e Talvane Albuquerque: entenda a chacina de 1998
Nome do ex-deputado voltou às buscas após resgate de discurso de Jair Bolsonaro contra a cassação em 1999.

A expressão Bolsonaro Talvane Albuquerque voltou a chamar atenção nas buscas nesta quinta-feira, dia 22. O interesse reabriu a discussão sobre a chacina de 1998, em Maceió, e sobre um discurso de Jair Bolsonaro em 1999.
Naquele momento, Bolsonaro era deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro. Ele contestou a cassação do mandato de Talvane Albuquerque, ex-deputado federal condenado por ordenar o assassinato da deputada Ceci Cunha e de outras três pessoas.
O que aconteceu em 1998
Talvane Albuquerque, médico e ex-deputado federal por Alagoas, foi condenado como mandante da chamada Chacina da Gruta. O crime ocorreu em 16 de dezembro de 1998, em Maceió.
Nesse dia, Ceci Cunha foi morta a tiros dentro de uma residência. Também morreram o marido dela, Juvenal Cunha da Silva, e os familiares Iran Carlos Maranhão Pureza e Ítala Neyde Maranhão Pureza.
O assassinato ocorreu poucas horas depois de Ceci receber o diploma da Justiça Eleitoral para um novo mandato na Câmara dos Deputados. Segundo a acusação acolhida pela Justiça, Talvane teria ordenado os crimes para assumir a vaga da parlamentar.
Ele havia disputado as eleições daquele ano, mas não conseguiu se eleger. Assim, ficou como suplente e assumiu o mandato em fevereiro de 1999, dois meses depois do crime.
O discurso de Bolsonaro na Câmara
Em 7 de abril de 1999, a Câmara dos Deputados analisou a cassação de Talvane Albuquerque. Michel Temer presidia a sessão, enquanto Jair Bolsonaro pediu a palavra para se posicionar contra o parecer favorável à perda do mandato.
Bolsonaro afirmou que quase não conhecia Talvane e negou amizade com ele. Disse ainda que se incomodava com a cassação, porque qualquer parlamentar poderia passar pela mesma situação.
“Fico com minha consciência pesarosa de votar pela cassação desse parlamentar, porque amanhã qualquer um de nós pode estar no lugar dele”, disse.
Ele também afirmou que a Câmara estaria condenando Talvane antes de uma decisão judicial definitiva. Além disso, questionou se o contato com alguém investigado bastaria para cassar um mandato.
“Mas quem aqui nunca teve contato ou conversou com um marginal?”, perguntou.
O pronunciamento ficou registrado no Diário da Câmara dos Deputados de 8 de abril de 1999. Bolsonaro disse ainda que não defendia um “marginal” nem acusava inocentes.
Como terminou a cassação
Apesar da fala de Bolsonaro, a Câmara retirou o mandato de Talvane Albuquerque por quebra de decoro parlamentar. A cassação recebeu 427 votos favoráveis e 29 contrários.
Outros 21 deputados se abstiveram, e houve um voto em branco. A votação foi secreta, por isso não há como identificar oficialmente o voto individual de Bolsonaro.
A perda do mandato saiu na Resolução nº 3, de 7 de abril de 1999, assinada por Michel Temer. O processo analisava a conduta parlamentar de Talvane e suas relações com pessoas investigadas no caso.
Condenação e pena
Em janeiro de 2012, a Justiça Federal em Alagoas condenou Talvane Albuquerque a 103 anos e quatro meses de prisão pelos quatro homicídios. Outros quatro acusados também receberam condenação por participação no crime.
Os jurados entenderam que os assassinatos ocorreram por motivo torpe e de forma que impediu a defesa das vítimas. A decisão também concluiu que o objetivo de Talvane era eliminar Ceci Cunha para ocupar a cadeira dela na Câmara.
Em maio de 2021, o STJ reduziu a pena para 92 anos, nove meses e 27 dias. Depois disso, em outubro do mesmo ano, Talvane passou a cumprir prisão domiciliar com monitoramento eletrônico.
Não há elementos, nas decisões judiciais e nos registros parlamentares citados, que indiquem participação de Jair Bolsonaro na chacina. A ligação documentada entre os dois nomes é o discurso de abril de 1999, quando ele se opôs à cassação do ex-deputado.



