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João Alberto, chefe de polícia de Vargas, e o pôquer na delegacia

Ex-interventor de São Paulo e chefe de polícia no Rio, ele acumulou cargos e ficou marcado por uma história de jogos na delegacia.

fabricio · 4 min de leitura
João Alberto, chefe de polícia de Vargas, e o pôquer na delegacia
Foto: Reprodução

João Alberto Lins de Barros, cuja trajetória ficou marcada na história política brasileira, foi interventor de São Paulo, chefe de polícia da Guanabara e ocupou outros cargos de destaque ao longo das décadas. A trajetória de João Alberto Lins de Barros passou por momentos decisivos da Era Vargas, inclusive em 1945, quando sua permanência no cargo de chefe de polícia fez parte da crise que antecedeu o fim do Estado Novo.

Nascido no Recife em 16 de junho de 1897, ele estudou engenharia e ingressou na carreira militar, chegando ao posto de capitão. Sua adesão ao tenentismo ganhou força após prisões e contatos com oficiais ligados aos irmãos Juarez e Joaquim Távora, experiência que ajudou a moldar sua atuação política. Anos depois, ele resumiria esse percurso com a frase: “Primeiro fiz a revolução, depois é que fui revolucionário”.

A participação dele em movimentos militares começou ainda na década de 1920. Em 1924, João Alberto voltou a integrar um levante ligado à revolta em São Paulo e, após a derrota, passou a compor a Coluna Prestes. O grupo reuniu cerca de 1.500 homens e percorreu mais de 25 mil quilômetros por 13 estados, em uma marcha que se tornou uma das mais conhecidas da história republicana.

Depois da Coluna Prestes, João Alberto entrou na clandestinidade, passou por diferentes cidades e chegou a usar nome falso. Em maio de 1930, sobreviveu à queda de um avião no Rio da Prata, episódio que marcou sua trajetória. Naquele período, ele e Siqueira Campos tentavam convencer Prestes a não publicar um manifesto de adesão ao comunismo, temendo divisão entre os aliados da Revolução de 1930.

Com a vitória do movimento armado em outubro daquele ano, Getúlio Vargas assumiu o Governo Provisório e os antigos tenentes passaram a ocupar cargos importantes. João Alberto foi escolhido interventor de São Paulo, em uma decisão que desagradou setores políticos paulistas. Durante os meses em que comandou o estado, permitiu o funcionamento legal do Partido Comunista, decretou aumento salarial de 5%, fixou semana de 40 horas e criou a Legião Revolucionária.

João Alberto Lins de Barros também enfrentou forte resistência política. Houve greves, contestação de militares e oposição das forças tradicionais paulistas. Em 1931, oficiais da Força Pública e membros do Partido Democrático tentaram um levante, rapidamente sufocado. Mais tarde, sua passagem por São Paulo seria apontada como um dos fatores da Revolução Constitucionalista de 1932.

O chefe de polícia que virou personagem político no Rio

Em 1932, ele foi nomeado chefe de polícia da Guanabara, então Distrito Federal, e voltou ao cargo em 1945, já sob o Departamento Federal de Segurança Pública. Nessa função, ganhou poder para vigiar opositores, controlar manifestações e administrar a repressão política na capital federal.

Foi também nesse período que surgiu uma das histórias mais conhecidas sobre sua atuação: João Alberto intimava pessoas de madrugada para ir a uma delegacia e participar de rodas de pôquer. O jogo era legalizado no país naquele tempo, e ele costumava receber os convidados com uísque, segundo a narrativa associada ao período.

Em outubro de 1945, ele proibiu um comício queremista marcado para o dia 27. Getúlio Vargas decidiu então substituí-lo por Benjamim Vargas, seu irmão, conhecido como “Bejo”. A escolha aumentou a pressão sobre o presidente e ajudou a precipitar o fim do Estado Novo em 29 de outubro daquele ano.

Depois disso, João Alberto seguiu em outras funções. Tornou-se diplomata em 1935, representou o Brasil na Argentina entre 1937 e 1938 e foi o primeiro embaixador brasileiro no Canadá, entre abril de 1941 e julho de 1942. Também presidiu a Coordenação de Mobilização Econômica em 1942, com atuação sobre preços, salários, produção e abastecimento.

Mais tarde, após 1945, filiou-se ao PSD, apoiou Dutra na disputa presidencial e foi vereador e presidente da Câmara do Distrito Federal em 1947. Em 1950, assumiu o Departamento Econômico do Itamaraty e, no segundo governo Vargas, voltou a ocupar funções técnicas e missões no exterior.

Fora da administração pública, presidiu a empresa aérea Transcontinental, dirigiu a Rádio Mayrink Veiga e foi o primeiro presidente do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. Também participou da criação da Fundação Getúlio Vargas, da Orquestra Sinfônica Brasileira e do Cordão do Bola Preta. João Alberto Lins de Barros morreu em janeiro de 1955, na Guanabara, aos 58 anos, em um dos apartamentos do anexo do Copacabana Palace.

Ao longo da vida pública, ele acumulou funções, atravessou governos e permaneceu ligado a episódios centrais da política brasileira. A trajetória de João Alberto Lins de Barros ajuda a explicar parte da reorganização do poder no país entre a Revolução de 1930 e os anos finais do Estado Novo.