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Plataformas e atos estudantis impulsionaram virada de Lula

Especialistas apontam que a mobilização nas ruas e nas redes ampliou o alcance do petista no segundo turno.

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Plataformas e atos estudantis impulsionaram virada de Lula
Foto: Reprodução

A virada de Lula no segundo turno contou com atos estudantis e mobilização digital em várias partes do país. Segundo especialistas, essas frentes ajudaram a ampliar a presença do petista no debate público e a mobilizar eleitores.

O candidato do PT venceu a disputa presidencial com mais de 51% dos votos válidos. Ele superou o adversário depois de perder no primeiro turno para o senador do PL.

Essa mudança ocorreu em uma eleição inédita desde a redemocratização. Além disso, o petista alcançou 64,2 milhões de votos, o maior número já obtido por um candidato à Presidência do Brasil.

Redes e ruas na disputa

Na avaliação de João Feres, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj, as três frentes tiveram peso diferente. A base social do PT, a comunicação digital e as manifestações atuaram juntas, mas com efeitos distintos.

“Foram determinantes em conjunto, mas é preciso hierarquizar”, disse Feres. Segundo ele, a base social deu sustentação, porém a mudança veio principalmente da operação de comunicação montada por André Janones.

Feres também destacou que o avanço de Lula ocorreu em regiões fora dos grandes centros. Além disso, a primeira votação teve abstenção recorde, e esse índice caiu no segundo turno.

No mesmo período, vídeos de idosos que faltaram à primeira etapa e depois voltaram às urnas ganharam circulação nas redes. Para o professor, não houve grande conversão de eleitores adversários. Houve, sobretudo, mobilização de quem decidiu comparecer.

A disputa digital também entrou no centro da análise. Feres afirmou que o bolsonarismo já tinha presença consolidada em plataformas como WhatsApp, Facebook e Instagram. A esquerda, porém, passou a disputar esse espaço de forma organizada.

O canal chamado de “Exército de Lula”, coordenado por Janones, chegou a 11 milhões de usuários no dia do segundo turno. “Pela primeira vez a esquerda contestou e venceu nesse ambiente”, afirmou Feres.

O papel das plataformas

Afonso de Albuquerque, professor da UFF, defendeu uma leitura mais ampla sobre esse processo. Para ele, as plataformas não apenas hospedam campanhas, mas também interferem na circulação dos conteúdos.

“Essas mídias escolheram esses agentes para ganharem protagonismo”, disse. Ele acrescentou que as plataformas operam em países sem regulamentação suficiente e, por isso, agem como agentes interessados na campanha.

Na visão do professor, a operação organizada em torno de Janones subverteu a lógica das redes durante a disputa. “Ele hackeia o algoritmo”, afirmou, ao comentar a estratégia.

Danillo Bragança, cientista político, também observou a força da atuação bolsonarista nas redes. Segundo ele, a exploração de temas ligados aos costumes ajudou a transformar a polêmica em ferramenta de mobilização.

Para Bragança, a campanha de Lula disputou esse espaço com outra lógica. Ele disse que a atuação do petista “reeducou” o ambiente digital e teve ligação com a mobilização nas ruas.

Manifestações estudantis ganharam força

Em Niterói, estudantes da Faculdade de Direito da UFF organizaram uma manifestação logo após o primeiro turno. O ato partiu do Centro Acadêmico Evaristo da Veiga e reuniu cerca de duas mil pessoas.

João Paulo Armando, diretor executivo do Caev, contou que a ideia inicial era reunir a comunidade acadêmica. No entanto, a mobilização cresceu rapidamente e saiu dos limites da faculdade.

“Quando a gente se deu conta, tinham duas mil pessoas”, afirmou. Segundo ele, a articulação envolveu outros grupos estudantis da UFF e se espalhou com o apoio das redes sociais.

A repercussão do ato em Niterói ajudou outras mobilizações estudantis pelo país. Além disso, os vídeos circularam ainda na noite de 5 de outubro, o que ampliou o alcance da iniciativa.

João Paulo disse que a manifestação inflamou as pessoas e devolveu esperança a parte dos jovens envolvidos. O movimento também se conectou ao pedido pelo fim da escala 6×1, votado no Congresso naquela semana.

Outra frente surgiu com jovens ligados ao Revide, movimento criado em 2026 a partir da fusão entre RUA e Afronte. Luiza Wrigg participou de atos presenciais e de uma vaquinha on-line para ajudar eleitores a chegar às urnas.

Ela afirmou que a organização deve continuar após a eleição. “A nossa revolução é permanente”, disse, ao defender a continuidade da mobilização nas redes e nas ruas.

O que pode ficar da mobilização

Entre os especialistas, não há consenso sobre os efeitos duradouros dessa experiência. João Feres considera que houve uma vitória importante para a esquerda, porém ainda sem mudança estrutural nas redes.

“Não alterou a assimetria estrutural”, avaliou. Para ele, a comunidade bolsonarista e os algoritmos das plataformas continuam influentes no cenário político.

Afonso de Albuquerque também vê limites nessa mobilização. Ele afirmou que é difícil sustentar por muito tempo uma atuação intensa de milhares de pessoas.

Além disso, o professor disse que as plataformas podem restringir esse tipo de ação. “As plataformas são muito importantes para dar voz para as pessoas comuns”, afirmou.

Danillo Bragança avaliou que o engajamento digital pode abrir espaço para uma atuação política mais participativa. Para ele, a rua e as redes hoje têm impacto semelhante na disputa pública.

Luiza Wrigg, por sua vez, defendeu que a mobilização siga após a votação. Ela citou a violência contra povos originários, pessoas negras, a população LGBT e moradores de periferias como temas que exigem pressão contínua.