Cais do Valongo é reconhecido pela Unesco como lugar de memória
O espaço no Rio passa a integrar rede internacional voltada à escravidão e ao tráfico de pessoas escravizadas.

O Cais do Valongo, na região portuária do Rio de Janeiro, recebeu novo reconhecimento da Unesco nesta terça-feira. O espaço passou a integrar a Rede de Lugares de História e Memória Relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas.
A iniciativa internacional busca preservar a história, valorizar a resistência negra e promover ações educativas. Além disso, o reconhecimento reforça o papel do Cais do Valongo como um dos principais pontos ligados à memória da escravidão no país.
O Ministério das Relações Exteriores apresentou a candidatura brasileira. Segundo a pasta, o reconhecimento ajuda a transmitir essa memória às novas gerações e amplia o conhecimento sobre a história da população negra no Brasil.
Memória na região portuária
Localizado na região portuária do Rio, o Cais do Valongo recebeu africanos escravizados nas Américas. Seus vestígios arqueológicos registram a dimensão do tráfico transatlântico e a violência que marcou a formação da sociedade brasileira.
O sítio já havia sido reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco em 2017. Agora, a inclusão na rede internacional amplia a visibilidade do local como espaço de memória das vítimas da escravidão.
O entorno do cais também integra a Pequena África. A área reúne referências históricas da cultura afro-brasileira e locais ligados à resistência negra. Dessa forma, o território reforça a memória da escravidão e da contribuição cultural da população negra no Rio.
Outros espaços reconhecidos
Além do local carioca, a Unesco incluiu a Sociedade Protetora dos Desvalidos, em Salvador, e a Serra da Barriga, em União dos Palmares. Os três espaços passam a integrar a mesma rede internacional de memória.
Em Salvador, a Sociedade Protetora dos Desvalidos representa uma trajetória de organização da população negra desde o século 19. Fundada em 1832 por Manoel Victor Serra e outros homens negros livres, a instituição é considerada a primeira organização civil negra do país em funcionamento contínuo.
Sua história também se relaciona à Revolta dos Búzios, de 1798, e à Revolta dos Malês, de 1835. Portanto, o reconhecimento destaca a importância da mobilização coletiva na luta por direitos e melhores condições de vida.
Já a Serra da Barriga abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares. O local está ligado à formação do Quilombo dos Palmares e integra o patrimônio da União desde 1988.
Rede quer ampliar preservação
Criada em 2024, a rede internacional conecta espaços históricos de diferentes países. Além disso, a iniciativa busca estimular preservação, pesquisa, educação e cooperação internacional.
O historiador Ivanir dos Santos afirmou que a inclusão dos três espaços ajuda a questionar narrativas tradicionais sobre a formação do Brasil. Ele também destacou o protagonismo da população negra e o papel do movimento negro na denúncia do racismo.
A diretora e representante da Unesco no Brasil, Marlova Jovchelovitch Noleto, disse que a rede pretende envolver as comunidades locais. Segundo ela, a proposta é transformar esses espaços em lugares vivos de conhecimento, diálogo intercultural e promoção dos direitos humanos.
Ivanir ressaltou, porém, que o reconhecimento internacional precisa vir com medidas concretas. Entre elas, ele citou políticas permanentes de preservação, educação antirracista e participação das comunidades negras na gestão e na interpretação dos espaços históricos.
Para o historiador, o reconhecimento precisa vir acompanhado de ações permanentes de preservação e educação antirracista.



