Monopólio da internet no Complexo da Penha: 40% da receita do CV
Segundo a PF, a cobrança de provedores representou mais de 40% da arrecadação da facção na região em um único mês; vereador do Rio está entre os presos.

O monopólio da internet no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio, responde por parte expressiva do dinheiro movimentado pelo Comando Vermelho (CV). De acordo com a Polícia Federal, registros financeiros da facção indicam que, em um único mês, a cobrança pelo serviço representou mais de 40% de toda a arrecadação do grupo na região. Os dados fazem parte das investigações que levaram à Operação Backbone, deflagrada na segunda-feira (19).
Como funciona o controle dos provedores
Conforme a PF, traficantes do CV cortam cabos, incendeiam caixas de distribuição e interrompem o sinal de operadoras regulares. Com isso, buscam forçar moradores e comerciantes a contratar apenas as empresas autorizadas pela facção.
Além disso, para atuar na comunidade, essas empresas precisam pagar uma espécie de tarifa mensal ao grupo criminoso. Segundo a investigação, a estrutura impõe o monopólio por meio de armas e ameaças nos complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão.
Prisões, mandados e bloqueio de bens
Na operação, os agentes cumpriram 23 mandados de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão. As ordens foram executadas nos municípios do Rio, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Teresópolis, Maricá e Magé. Pelo menos 20 pessoas foram presas.
Entre elas estão a mãe e um irmão do rapper Oruam, filho do traficante Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP. O vereador do Rio Fábio Silva (Podemos) também foi preso. Imagens divulgadas pela PF mostram joias e dinheiro na casa de um beneficiário de uma das empresas provedoras ligadas ao CV.
Ainda segundo a PF, foi determinado o bloqueio de bens e valores de até R$ 558 milhões. A medida alcança 40 pessoas físicas e 42 empresas.
O caso do vereador Fábio Silva
De acordo com a investigação, Fábio Silva é ligado à Nort Telecom, empresa investigada que atua no Complexo do Chapadão. Durante a campanha eleitoral de 2024, o atendimento automático da provedora usava o nome e o número de urna do parlamentar (20669) nas mensagens enviadas aos clientes.
Naquele ano, uma denúncia encaminhada ao Ministério Público Eleitoral apontou que clientes eram ameaçados de ter a internet suspensa caso não votassem nele, mesmo com os pagamentos em dia. Por isso, o órgão pediu a cassação do mandato por suspeita de abuso de poder econômico e político.
A denúncia também citava a pintura de espaços públicos com a cor verde, a mesma da campanha do vereador. Uma testemunha ouvida pelo MP Eleitoral afirmou que o CV atuava no local e permitia essa pintura. Mesmo assim, a Justiça Eleitoral absolveu o vereador na ação de cassação. Ele chegou a ser multado em R$ 5 mil por propaganda irregular.
Fábio Silva foi preso em Londrina (PR), onde viajou para um casamento, após ser localizado por meio de uma publicação nas redes sociais. Ele foi levado ao Centro Integrado de Triagem da cidade. A transferência para o Rio depende de autorização do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável pela decisão de prisão a pedido da PF.
O vereador negou as acusações e afirmou que não tem ligação com práticas ilícitas. A defesa informou que vai se manifestar depois de ter acesso aos autos.



